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Xico Graziano

Como o 'small is beautiful' perdeu o sentido, escreve Xico Graziano

06 de julho de 2021 | 08h41 | Atualizado há 114 dias

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Publicado em 1973, "Small is beautiful" foi um importante livro de minha geração. Criticava a economia moderna, considerada 'insustentável' pelo economista alemão Ernest Schumacher, seu autor.

Intitulado, aqui, 'O negócio é ser pequeno', nele Schumacher defendia que as indústrias deveriam ser simples e espalhadas longe dos centros urbanos. Seus insumos deveriam ter fontes próximas e, o consumo, ser apenas local. Fora disso, feria a essência do ser humano.

Nessa mesma época, a inesquecível Elis Regina cantava 'Eu quero uma casa no campo', maravilhosa composição de Tavito e Zé Rodrix (1972). Embora contestadores, os jovens universitários, como eu, adoravam essa ideia de curtir a mansidão da roça: "Eu quero carneiros e cabras. Pastando solenes no meu jardim...Eu quero plantar e colher com a mão".

Assim, a apologia da pequenez se associou ao bucolismo para, curiosamente, criar uma ideologia que negava o avanço do capitalismo moderno. Questionava-se a industrialização e a urbanização, supondo que devêssemos todos morar, descentralizadamente, no campo. Temíamos a crise ecológica planetária.

Passados 50 anos, o rumo civilizatório seguiu em frente desprezando Schumacher e pouco se importando com Elis Regina. As regiões metropolitanas se fortaleceram, a industrialização concentrou capitais, surgiram os enormes supermercados, o agro se capitalizou. No Brasil e em todo o mundo.

Curiosamente, porém, aquela utopia regressiva não desapareceu por completo. Percebe-se ainda sua presença, por exemplo, quando certos grupos de opinião hoje em dia criticam as complexas cadeias produtivas de alimentos.

Tal opinião, que poderia ser denominada de 'elitista-esquerdista', julga correto, e possível, que as famílias abasteçam sua mesa com produtos naturais, oriundos de feiras locais e artesanais. Renegam os alimentos que consideram 'ultra processados'.

Alguns vão mais longe, e defendem que cada qual produza sua própria comida, como se fazia no passado, enaltecendo o cultivo 'orgânico' em hortas domiciliares e que tais. Esse contato com a natureza asseguraria a felicidade. Com a mão suja na terra, e com dinheiro no bolso, obviamente.

Sinceramente eu não consigo entender como que, na atualidade, alguém imagine ser possível a humanidade voltar ao tempo da produção simples de mercadorias. Naquela época do 'small is beautiful', o mundo vivia uma transição demográfica, estando a população humana ao redor de 3,6 bilhões de habitantes. No Brasil, 50% das pessoas moravam na zona rural.

Ademais, o Clube de Roma alertava que a civilização caminhava para um colapso ecológico, apregoando o 'crescimento zero' das economias, a ser realizado com absoluto controle populacional. Somente assim se evitaria a temida escassez de recursos naturais da Terra. O petróleo -eu acreditava nisso - iria acabar na virada do século.

Felizmente, a tremenda evolução tecnológica, somada, claro, às políticas ambientais, derrubaram a previsão catastrófica do Clube de Roma. Hoje somos 7,8 bilhões de habitantes. No Brasil, 87% residem nas cidades. E a qualidade de vida mundial melhorou substancialmente.

Em 1800, na época de Thomas Malthus, a Terra tinha 1 bilhão de habitantes e a expectativa média de vida era próxima de 37 anos; em 1900, passara para 45 anos e, agora, em 2020, ronda os 70 anos. No Brasil, a expectativa de vida era de 45,5 anos em 1945; hoje está em 76,7 anos de idade.

Nessa circunstância, como pode alguém defender a virtude do modo de vida camponês, da agricultura medieval, de baixa produtividade?

Trata-se de uma visão pós-capitalista restrita à participantes da elite econômica-social-intelectual, cujos dispêndios de alimentação pouco significam em seu consumo. É filosófico, não econômico. Essa elite da elite, conforme a denomino, combate a moderna produção de alimentos como que parecendo buscar uma fuga de sua existência fútil.

Ela xinga o leite de caixinha, que não azeda, ou combate o alimento industrializado, que dispensa fogão à lenha, sem se importar com a vida difícil das pessoas simplórias e atarefadas que mal têm tempo para se sentar e comer e pagar a conta.

É paradoxal. Pois quando passam um susto de saúde, sofrendo uma dor qualquer, procuram logo o melhor da medicina, a mais moderna ultrassonografia e o mais atual dos antibióticos. Odeiam agrotóxicos químicos, necessários para combater pragas agrícolas, mas se entopem de pílulas químicas exigidas para curar suas doenças. Ou regular seu humor.

Schumacher foi um grande pensador. Elis Regina, uma grande cantora. Fazem parte da história da civilização.

Que deixa um aviso: não anda de marcha-à-ré.

Foto: Pexels
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