Xico Graziano

Caso Chico Mendes faz pensar: quem são nossos heróis?

Questiona Xico Graziano - História pode e deve ser recontada

20/02/2019 11h03

A história de um povo, e de seus líderes, pode ser contada de diferentes formas. Trata-se de velho problema das ciências sociais: os olhos do narrador se influenciam pela sua visão de mundo.

A história normalmente conta a história da classe dominante. Desde o Império Romano, passando pela Idade Média, quem selecionou seus mártires foram os poderosos.

Os imperadores, reis e nobres, papas e arcebispos, relatavam a sua versão dos fatos e, dessa forma, Spartacus ou Joana dArc cumpriram papéis que os catalogaram como traidores ou hereges.

Os protagonistas do nascente capitalismo e, após 1917, do bloco comunista, foram celebrados, tendenciosamente, pelo sistema que ajudaram a erigir. Vide as odes a Napoleão Bonaparte ou Lenin.

As sociedades modernas, porém, se tornaram mais complexas e, especialmente com a comunicação via internet, passaram a facilitar a exposição de distintas leitura da história.

Furou-se aquela redoma ideológica que circunscrevia as narrativas. Resultou assim que, muitas vezes, os mesmos personagens passaram a ser, para uns, heróis, para outros, desprezíveis.

Pode-se revisitar a história, ou ela é imutável? Hoje a resposta é óbvia: claro que sim, a história pode, e muitas vezes deve, ser recontada.

Bastam novos conhecimentos virem à tona, descobertos por pesquisas ou por mudanças ocorridas na esfera do poder político. Muda o paradigma dominante, novos personagens assumem as rédeas da sociedade.

Perigoso e complicado é esse processo. Por quê?!

Acontece que, se mutável, a história pode, então, ser manipulada, propositadamente falseada. Exemplos? Stálin foi campeão em esconder a opressão comunista até ser desmascarado pelo relatório Kruschev.

Lula, logo que eleito, fez seus marqueteiros criarem aquela narrativa da "herança maldita" recebida de FHC, determinando que a história do país havia começado em 2002.

Balelas são impostas como verdades até serem desmascaradas, passado o tempo, através do conhecimento científico que, por pressuposto, é isento. Podem, todavia, persistirem os embustes qual excrescências da história.

Chico Mendes não era, verdadeiramente, um ecologista, mas sim um sindicalista do Acre, liderança aguerrida que defendia os seringueiros e os posseiros, contra os latifundiários da borracha. A floresta era seu palco de luta política, não propriamente uma bandeira ambiental.

Assassinado em 1988, quando a política fervia na Assembleia Nacional Constituinte, sua morte serviu ao proselitismo da esquerda. Recém-saído do atraso social, naquela época o país ansiava por entrar na modernidade.

Ricardo Salles não cometeu nenhuma maldade ao questionar a fama de Chico Mendes. Nem afrontou a história. Apenas questionou o rótulo ideológico que o consagrou como o maior ambientalista do Brasil.

Que a análise fria dos fatos esclareça, afinal, qual foi a real contribuição de Chico Mendes à nossa história.

O ministro do Meio Ambiente irritou a velha esquerda. Mas sua ousadia pode ter prestado um favor à nação.

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