Brasil

Brasileiro ainda lê poucos livros

Livros mais lidos hoje pelos jovens costumam estar associados a fenômenos culturais

19/04/2017 03h18 | Atualizado em 19/04/2017 04h14

Os hábitos de leitura dos brasileiros mudaram. Várias plataformas para além do papel nos conduzem ao texto. Os mais jovens tendem a ler obras relacionadas com conteúdo multimídia.

É comum que, ao final do ano, depois de pesquisas de comportamento de leitores e de compradores de livros, sejam dadas notícias de que o brasileiro lê pouco. Se considerarmos os dados da pesquisa Retratos da Leitura, realizada em 2015 pelo instituto Pró Livro e publicado no site da Câmara Nacional de Livros em 2016, nos deparamos com um cenário um pouco mais otimista que o noticiado, mas ainda cheio de questões que merecem atenção.

De acordo com Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro "Não podemos afirmar de uma forma geral que o brasileiro lê pouco. Todos nós estamos a todo tempo lendo, consumindo informação, mas não necessariamente lendo livros. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizado pelo Instituto Pró-livro, com apoio da Câmara Brasileira do Livro, Snel e Abrelivros, 56% da população brasileira é formada por leitores. Em 2011, eram 50%, então estamos crescendo, mas há ainda muitos leitores para conquistar. Sobre a questão da confusão entre quanto o brasileiro lê e quanto ele compra livros, devemos levar em consideração que existem muitas formas de consumir os livros, podemos comprar, pegar emprestado, ir à biblioteca. Por isso, não podemos definir o número de leitores pela quantidade de livros que são vendidos no país. ?

Dentre os entrevistados da pesquisa, 77% afirmou que gostaria de ter lido mais e 43% não leram mais por falta de tempo. Entre os não leitores 32% disseram não ler também por falta de tempo. E de 2011 para 2015 a porcentagem de pessoas que disseram não gostar de ler caiu de 30% para 23%, aumentando o número de pessoas que gostam pouco ou gostam muito de ler.

A maioria das pessoas ainda prefere ler em papel. Livros comprados em lojas físicas ou pela internet foram considerados a principal forma de acesso à leitura (43%). Mas 74% das pessoas diz não ter comprado livros nos últimos 3 meses anteriores à pesquisa. E a maioria das pessoas ainda prefere comprar em livrarias físicas.

O livro mais lido no Brasil ainda é a Bíblia, seguido pelos livros religiosos, contos e romances. Em 2016, o livro mais vendido, segundo o Publishnews, foi o romance ?Como eu era antes de você", depois dele vem o novo livro do Padre Marcelo Rossi, Ruah. Livros de youtubers também aparecem na lista.

Sobre esses livros atrelados a indústria cultural, Torelli afirma: para conquistarmos novos leitores, precisamos oferecer algo pelo qual eles se interessem. A Bienal do Livro de São Paulo é um grande exemplo sobre como o jovem interage com a leitura. Em 2016, por exemplo, vimos milhares de adolescentes em palestras e bate-papos com youtubers que haviam publicado seus livros. Em 2014 havia uma fila interminável de fãs para pegarem seus autógrafos com a Cassandra Claire, autora do livro fantástico ?Os Instrumentos Mortais?, que virou filme. Esses jovens estão entrando no universo literário com a literatura ideal para a sua idade. Não precisamos forçar alguém gostar de ler, precisamos apenas introduzi-la nesse universo da maneira correta. ?

E acrescenta ?Diria mais, as redes sociais muitas vezes são responsáveis por incentivar a leitura de livros. Por exemplo, quantos jovens não começaram a ler após assistir um vídeo de um booktuber? Esse pessoal jovem que faz resenhas de livros no youtube são grandes disseminadores para a criação de novos leitores. ?

Sobre a leitura em bibliotecas, a pesquisa traz o seguinte comentário: ?A biblioteca é fortemente associada com um espaço para estudo e pesquisa. Outros usos e associações que esse espaço poderia ter, o que concorreria para a ampliação de seu público frequentador, tiveram percentuais baixos de menções. No entanto, ainda que a biblioteca seja vista como espaço do estudante, e seja realmente mais frequentada por estudantes, 37% de seu público é composto por não estudantes. ?

81% dos entrevistados da pesquisa disseram ler em casa, 25% em salas de aula e 19% em bibliotecas. Em 2011 o número de pessoas que liam em bibliotecas foi menor. O percentual de menções a ?Ter mais livros ou títulos novos? corrobora com o percentual de 41% dos que apontaram não encontrar os livros que procuram nas bibliotecas que frequentam.

No entanto, alguns dados não são tão animadores. A cada edição da pesquisa diminui a proporção dos que afirmam não ter nenhuma dificuldade para ler. Na pesquisa de 2007 o número foi de 48%, em 2015 foi 33%. Ou seja, os brasileiros estão lendo com mais dificuldade.

A televisão perdeu um pouco do espaço que ocupava do tempo livre dos brasileiros e a internet e as redes sociais têm ocupado maior parte desse tempo. Pela primeira vez a pesquisa colocou o whatsapp como opção e 43% dos entrevistados disse usá-lo no tempo livre.

33% dos entrevistados disseram que nunca usaram Internet. 66% das pessoas que usam internet disseram usar para trocar mensagens no whatsapp ou no snapchat. A atividade de leitura mais realizada na internet é a leitura de notícias.

O formato livro digital ainda é muito pouco consumido. Apenas 41% dos entrevistados já ouviu falar de livros digitais e desses só 26% já leram. Entre os leitores digitais, 56% lê no celular smatphone e 88% optam por conteúdo gratuito.

Além dos dados, a pesquisa traz um livro relatório intitulado Retratos da Leitura no Brasil 4, organizado por Zoara Failla. No capítulo 5, o professor de literatura brasileira da Unesp, João Luís Ceccantini faz uma reflexão sobre o hábito de dizer que o brasileiro, principalmente o jovem, não lê.

?No tom de um discurso apocalíptico (para empregar aqui um termo extremamente caro a Umberto Eco), tem sido muito comum ouvir no meio escolar frases como ?os jovens não leem? ou ?os jovens não gostam de ler?. Trata-se de um discurso que enaltece épocas passadas, geralmente permeado por expressões do tipo ?no meu tempo, era diferente??. O que parece muito mais traduzir a incapacidade da escola de enfrentar desafios pedagógicos frente às rápidas mudanças da sociedade nos séculos XX e XXI do que fazer um diagnóstico acurado dos fenômenos em curso. Os dados revelados sobre a leitura dos jovens na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 4 (2016/ano-base 2015) vão na contramão dessa visão apocalíptica, reiterando um cenário bem mais alentador sobre o perfil dos jovens como leitores do que o usualmente apontado, sobretudo se for considerado o contexto da população brasileira como um todo. Vale dizer que algumas pesquisas e projetos sobre o assunto disponibilizados nas duas últimas décadas, ainda que orientados segundo diferentes objetivos e perspectivas, vêm acenando para esse quadro paulatinamente otimista quanto às leituras juvenis.

As práticas culturais dos jovens são hoje complexas, múltiplas, inter-relacionadas e se apoiam fortemente num processo lúdico e de socialização, que, por sua vez, adquire contornos cada vez mais globalizados. Em outras palavras, dificilmente um jovem lê um livro ?de forma isolada?. E entenda-se essa expressão na sua ambiguidade: tanto no sentido de ler um livro e se restringir a ele ou de ler um livro na solidão e apenas para si mesmo. Os livros mais lidos hoje pelos jovens costumam estar associados a fenômenos culturais que não se limitam a um dado livro, mas envolvem adaptações e recriações as mais variadas, abarcando filmes, vídeos, peças teatrais, música, videogames, moda, HQ, TV, sites, espetáculos multimídia, aplicativos, enfim, uma grande diversidade de produtos que vinculam cultura e consumo e convidam permanentemente à múltipla fruição e ao trânsito entre linguagens e suportes, fundindo-se variadas modalidades. ?

Revistaforum/TV Cultura