Agro

Da astronomia à agronomia

O avanço tecnológico alterou as épocas e os métodos de plantio, oferecendo novas liberdades aos agricultores


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Foto: Xico Graziano

O equinócio da primavera, em 2022, ocorre precisamente às 22h04min de 22 de setembro. Naquele exato momento, o dia terá a mesma duração da noite. A lição vem da astronomia.

Tudo a ver com a agronomia. Para que as plantas cresçam, os fatores ambientais necessários são luz, calor e umidade. No inverno, dias mais curtos reduzem o período da fotossíntese, e o frio freia a vegetação. Se vier a neve, leva à hibernação. Como os ursos.

Ao contrário, quando os dias começam a se tornar mais longos, como agora, vem o estímulo ao crescimento vegetal. Mais luz, mais energia sintetizada, mais brotação, florescimento, frutificação e sementes. É o ciclo vital

Daqui até o solstício de verão, em 21 de dezembro, a insolação vai aumentar dia após dia. Por isso, é chegada a época do plantio convencional das lavouras. E virão as chuvas. Logo os tratores zunirão no campo.

Vale para o hemisfério Sul, onde se localiza o Brasil. Porque no hemisfério Norte funciona ao contrário. Quando aqui esquenta, lá esfria. E vice-versa.

Outra diferença: nas regiões tropicais, em nada se diferenciam as estações do ano. A inclinação da Terra pouco muda em relação ao sol, de forma que faz sol e calor o ano todo. No Nordeste brasileiro, por exemplo, falar em primavera soa estranho. E o inverno, lá, se diz quando chove mais.

Por milhares de anos, os agricultores seguiram os ditames da astronomia para cultivar e criar. Eram dependentes da natureza. Exceto nas antigas lavouras irrigadas, onde se conseguia controlar a oferta de água às plantas.

Até que o mundo da tecnologia tenha chegado para se impor sobre o desígnio natural. Pode-se dizer que há 80 anos surgiu a moderna agronomia. Foi na década de 1940 que se introduziu a famosa adubação química NPK (nitrogênio-fósforo-potássio). Na mesma época se iniciou o combate de pragas com ingredientes químicos sintetizados em laboratório.

Turbinado com a descoberta do DNA (1953), a interferência do conhecimento humano sobre os ciclos naturais preponderou com o melhoramento genético. Variedades precoces, ou tardias, começaram a teimar contra o ciclo traçado pela astronomia.

Hoje, com o enorme desenvolvimento tecnológico no agro, se cultivam plantas em estufas, na hidroponia, no deserto, nas paredes da cidade, na luz artificial. Romperam-se muitos limites da natureza. Eu saúdo a chegada da primavera no Brasil tal como meu pai o fazia no passado, lá em Araras (SP). Olhava para a janela e dizia: "Logo chegarão as chuvas, vamos rezar para São Pedro".

Dizem que é por essa dependência da benesse natural que as propriedades rurais, invariavelmente, têm nome de santo. A nossa era a fazenda Santa Clementina. Fervor a Deus. Papai viveu pouco para ver o incrível avanço da agronomia, que foi alterando as épocas e os métodos de plantio, oferecendo novas liberdades aos agricultores. Se papai vivesse hoje em dia, porém, testemunharia as mudanças climáticas, que passaram a afetar a civilização como um todo, não só o agro.

Os impactos climáticos são reais. Quando ainda morávamos na fazenda, as chuvas vinham logo ao final de setembro. Hoje em dia, tardam a chegar. E, muitas vezes, cessam do nada, dando uma baita estiagem em dezembro, ou janeiro. O que era raro, virou frequente.

O que está ocorrendo com o clima da Terra?

Atribui-se às ações humanas o descontrole do clima. É bem provável. Afinal, a população humana cresce sem parar. Em 1950, o planeta tinha 2,5 bilhões de habitantes; no Brasil, éramos só 52 milhões de almas. 

Frente ao aumento populacional, e à urbanização, os agricultores do mundo foram chamados a se tornar mais produtivos. Com ajuda da tecnologia, deram conta do recado. Mas surgiram impactos ambientais.

Nas cidades também. A crescente "pegada ecológica" da civilização sobre a Terra origina um dilema existencial: como continuar vivendo, produzindo, se alimentando, sem destruir oikos, a nossa moradia planetária?

Entre tantas dúvidas, uma certeza: o porto seguro da humanidade reside no conhecimento científico e na inovação tecnológica. Só que esse processo, que no agro eleva a produtividade e economiza recursos naturais, modifica a natureza.

Cria-se assim, pelo esforço e inteligência humana, uma 2ª natureza, tão bela quanto a original, embora completamente distinta. Vale para os campos cultivados, como para as metrópoles. Contemple tais obras com os olhos da criação humana.

Viver em harmonia com a natureza não significa se submeter às condições originárias, mas criar condições para a sustentabilidade humana em seu devir. A astronomia e seu equinócio da primavera continuam inalterados. O que muda é a condição humana.

Xico Graziano

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