Xico Graziano

Feijão transgênico é uma maravilha da agronomia, diz Xico Graziano

10/04/2019 11h26

O feijão transgênico desenvolvido por pesquisadores da Embrapa é uma maravilha recente da agronomia. Sofre, porém, a ameaça do obscurantismo, que há anos impede seu lançamento no mercado.

Essa verdadeira novela científica começou em 2004, quando a equipe de engenharia genética da Embrapa, liderada por Francisco Aragão, desenvolveu uma planta resistente ao mosaico amarelo: surgia assim o feijão RMD.

Essa terrível doença é causada por um vírus, transmitido por um pequeno inseto, a "mosca branca". Quando infecta as lavouras, causa estragos de 40% até a perda total da colheita. Os agricultores a controlam pulverizando seguidamente inseticidas contra o inseto transmissor.

Aplica-se muito pesticida, com enorme custo financeiro e ambiental. Mas nem sempre funciona. Perdas de até 300 mil toneladas de feijão, conforme a safra, têm sido estimadas pela Embrapa. Daria para alimentar cerca de 15 milhões de brasileiros.

O feijão RMD teve seu genoma alterado para estimular uma reação imune da planta à infecção causada pelo vírus nos tecidos vegetais. Quer dizer, a técnica utilizada não introduziu nenhum gene estranho ao feijoeiro, mas sim realizou um "silenciamento" interno na sua carga genética. Surgiu assim essa proeza à multiplicação do vírus do mosaico.

Após todos os testes de biossegurança necessários, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou, em 2011, a liberação comercial do feijão RMD. Mas o nosso transgênico verde-amarelo dormiu nas gavetas do obscurantismo patrocinado pela esquerda petista.

Agora, virada a página da política nacional, seu lançamento está sendo preparado, para orgulho da engenharia genética brasileira. O obscurantismo, novamente, resolveu atacar. Um grupo de produtores de feijão do Sul do país está solicitando ao Ministério da Agricultura a destruição total das sementes do feijão RMD.

Não estão claras as razões desse pleito. Alguns agentes da cadeia produtiva estão apreensivos com a possibilidade do feijão transgênico ser criticado pelos ecologistas. Acham um risco lançar a nova variedade sem estar a população bem esclarecida sobre suas vantagens. Pedem mais tempo para estudos complementares.

Por outro lado, produtores de feijão do Centro-Oeste aguardam ansiosos a liberação do feijão RMD. As novas fronteiras agrícolas têm descoberto no feijão uma boa alternativa para ocupar o solo, irrigado, após colher a lavoura principal. Daqui nasceu um imbróglio: os tradicionais produtores, que produzem feijão nas regiões mais frias do Brasil, temem a concorrência da safra do cerrado.

Os produtos da engenharia genética - na agricultura, na medicina, na alimentação - estão avançando mundialmente. Toda a insulina que cura diabéticos se obtém por transgenia; queijos deliciosos são derivados de fermentação com microrganismos transgênicos; 24 países cultivam 189,8 milhões de hectares com lavouras geneticamente modificadas.

Jamais se notificou qualquer dano à saúde humana ocorrido por ingestão de alimento transgênico. Temores ambientalistas - escape gênico, super resistência de organismos - não se concretizaram. E o medo ideológico - de sermos todos dominados pelas multinacionais - caiu por terra: instituições públicas de pesquisa, como a Embrapa, avançam na detenção do conhecimento biotecnológico. Felizmente.

Zelo nunca é demais. A liberação comercial do feijão transgênico da Embrapa deve ser acompanhada de todos os cuidados, na biossegurança, na agronomia, na ecologia. Esclarecimentos à população, rotulagem adequada, sempre se fazem necessários.

Agora, propor a incineração das sementes do feijão transgênico remonta à polêmica causada pelo ludismo, histórico movimento encabeçado na Inglaterra por Ned Luddi que, no início dos anos 1800, destruía os teares mecânicos protestando contra a perda de emprego dos tecelões manuais. Não vingou.

Inexiste força que resista ao progresso científico e tecnológico. Ademais, ninguém é obrigado nem a plantar nem a vender e muito menos a comer feijão transgênico. Deixemos o mercado reagir ao evento. Querer impedir seu lançamento significa aniquilar o valor da ciência.

Chega de estatismo.

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