Cascavel já registrou quatro casos de feminicídio neste ano. Entre eles, agora está a morte de Vanessa Marty, de 44 anos, escrivã da Polícia Federal, no bairro Brasília.
A denúncia do Ministério Público sustenta que Vanessa foi vítima de feminicídio, contrariando a versão apresentada inicialmente pelo companheiro, Júlio César Waltemann de Freitas, de 58 anos, subtenente da reserva do Exército, de que ela teria cometido suicídio.
As investigações da Polícia Civil e da Polícia Científica apontaram inconsistências na dinâmica dos fatos e embasaram o indiciamento do militar pelo crime.
"O comportamento do acusado também contribui muito para as teses apresentadas pela acusação. A primeira questão que chamou muita atenção foi o fato de ele não ter socorrido a esposa, se ali, de fato, ela tivesse tirado a própria vida. Isso seria facilitado, inclusive, porque ela faleceu dentro do próprio veículo, o que possibilitaria a ele um socorro imediato. Segundo ele, ele tenta prestar socorro para ela e, em razão disso, ele se suja de sangue, mas, com a chegada da equipe policial local, percebe-se que ele já está limpo", disse Ricardo Augusto Blante, assistente de acusação.
Morte de escrivã da PF em Cascavel passa a ser investigada como feminicídio
Apesar do recebimento da denúncia, a investigação ainda aguarda a conclusão de alguns laudos periciais e também da reconstituição do crime.
"Existem algumas perícias a serem realizadas no local, como uma perícia relacionada à captação de som, e cogita-se também a possibilidade de requerer uma nova perícia em cima do veículo onde a vítima foi morta", afirmou Ricardo.
A Defesa do Militar questiona a decisão do Ministério Público de oferecer a denúncia antes da conclusão de todas as perícias. Segundo ela, o processo ainda depende da finalização das provas técnicas para esclarecer completamente o caso.
"De uma maneira muito rápida e não conclusiva por parte da Polícia Científica, algumas perícias ainda estão por ser finalizadas, sejam elas perícias na própria vítima, na mão dela, no couro cabeludo dela, para se apontar tecnicamente se há ou não resquícios de pólvora ou até queimadura decorrente do disparo de arma de fogo no corpo da vítima, também perícias a serem realizadas na roupa da vítima e na roupa do acusado, que ambas as roupas foram recolhidas e encaminhadas para apontar se há vestígio ou não de pólvora, e outras provas. A perícia não usa aparelhos de telefone celular tanto da acusada quanto da vítima, são perícias, provas técnicas que sequer foram finalizadas e, mesmo assim, o Ministério Público optou por oferecer essa denúncia sem haver essa conclusão da prova pericial", relatou Armando Souza, advogado de defesa do acusado.
A defesa informou ainda que deve apresentar um novo pedido de habeas corpus na tentativa de revogar a prisão preventiva do militar.
"Foi solicitada a liberdade provisória dele para que ele respondesse em liberdade na audiência de custódia, mas que foi indeferido pela Justiça sob o argumento e fundamento único e exclusivo pela garantia da ordem pública", falou Armando.
Vanessa Marty, de 45 anos, era escrivã da Polícia Federal. Ela foi encontrada morta com um disparo de arma de fogo na cabeça, dentro do carro da família, na noite do dia 24 de junho em Cascavel.
Na ocasião, o marido, o subtenente da reserva do Exército, afirmou que a esposa havia tirado a própria vida após uma discussão.
As imagens obtidas com exclusividade pela Catve mostram a movimentação na casa no dia do crime. O carro entra na garagem por volta das 20h e se escuta o militar gritando, como se fosse uma discussão.
Cerca de três minutos depois, é possível ouvir o disparo. Na sequência, o militar grita. Logo depois, ele pega o telefone, aciona o SAMU e faz outras ligações.
Em outro momento, nas imagens, o militar afirma que não vai se aproximar da esposa.
"Eu acho que está respirando, eu não posso mexer, senão depois eu vou ser condenado", diz o homem.
VÍDEO: câmera capta tiro e socorro após morte de escrivã da PF em Cascavel
O militar da reserva permanece preso no 33º Batalhão de Infantaria Mecanizado, em Cascavel, enquanto aguarda o andamento do processo judicial.
A Polícia Militar realiza um trabalho de prevenção de casos de violência doméstica e feminicídios com uma equipe exclusiva da Patrulha Maria da Penha. Entre janeiro e julho, as equipes realizaram 906 ocorrências em 2025. Já neste ano, foram 888. Em relação às medidas protetivas, foram 1.200 casos no ano passado e 600 em 2026.
"Em comparação ao ano passado, eles estão realizando praticamente o mesmo tanto de visitas, o mesmo tanto de atendimentos, o mesmo tanto de situações que ocorreram do ano passado e desse ano, estatisticamente bem próximo. No entanto, o que nos preocupa é um pouco a questão do feminicídio. Infelizmente, os dados desse ano já quase se igualam aos do ano passado em termos de feminicídio. Essa tendência de estabilização agora de ocorrências do tipo ali se vê em virtude de que a gente veio de uma sequência de anos aumentando registros de violência doméstica, mas isso não é porque aumentou a quantidade de violência doméstica, é porque agora as pessoas estão mais conscientes, estão denunciando, estão procurando a polícia para registrar, fazer registro disso e buscar seus direitos", afirmou tenente João Marcelo de Oliveira, da Polícia Militar de Cascavel.
Confira mais detalhes no vídeo:
Reportagem Déborah Evangelista | Jornal da Catve
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