Cotidiano

Há 46 anos, João Paulo II iniciava visita histórica ao Brasil que reuniu multidões e marcou gerações

Primeiro papa a pisar em solo brasileiro percorreu quase 15 mil quilômetros, visitou 13 cidades em 13 dias


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Arquivo pessoal padre Gilson

Há exatos 46 anos, em 30 de junho de 1980, o Brasil recebia pela primeira vez um pontífice. São João Paulo II desembarcava em Brasília para uma viagem histórica que mudaria a relação entre a Igreja Católica e os brasileiros. Durante 13 dias, o papa percorreu cerca de 15 mil quilômetros, passou por 13 cidades e reuniu milhões de fiéis em missas, encontros e celebrações que ficaram marcados na memória do país.

Logo ao chegar à Base Aérea de Brasília, João Paulo II repetiu um gesto que se tornaria uma de suas marcas: ajoelhou-se e beijou o solo brasileiro. Recebido pelo então presidente João Figueiredo, iniciou uma intensa agenda que incluiu celebrações religiosas, encontros com autoridades, trabalhadores, estudantes, indígenas, cientistas, religiosos, presos e moradores de comunidades carentes.

A primeira missa da viagem foi celebrada na Praça dos Três Poderes, diante de aproximadamente 700 mil pessoas. Ao longo da visita, o pontífice ainda passou por Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Aparecida, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Teresina, Belém, Fortaleza e Manaus.

Visita ao Vidigal entrou para a história

Um dos momentos mais emblemáticos da passagem de João Paulo II pelo Brasil aconteceu no Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1980, quando ele visitou a Favela do Vidigal. A decisão surpreendeu até mesmo os responsáveis pela segurança da viagem.

A professora Maria Christina de Sá, hoje com 90 anos, participou da organização da visita e relembrou que a proposta causou espanto entre militares e integrantes da equipe de segurança. A preocupação era garantir a integridade do pontífice em uma comunidade que vivia um momento delicado.

Na época, os moradores do Vidigal enfrentavam uma ameaça de remoção por parte do poder público. A justificativa era o risco de deslizamentos, mas a comunidade resistia à transferência para outra região da cidade. A presença do papa acabou dando visibilidade internacional à situação.

Para garantir a segurança, um grande esquema foi montado. A comunidade foi isolada durante a madrugada anterior à visita, casas foram vistoriadas por agentes da Polícia Federal e militares do Exército, e o acesso ao morro foi controlado rigorosamente.

Na comunidade, João Paulo II inaugurou a Capela São Francisco de Assis, construída em mutirão pelos próprios moradores. Em seu discurso, deixou uma mensagem que permanece lembrada até hoje:

"Vim aqui, não por curiosidade, mas porque amo vocês e lhes quero bem."

Ao final da cerimônia, protagonizou outro gesto marcante ao retirar o próprio anel episcopal e entregá-lo ao padre Ítalo Coelho, coordenador da Pastoral das Favelas. O objeto foi posteriormente preservado pelo Museu de Arte Sacra de São Paulo, enquanto uma réplica permaneceu com a comunidade.

Durante a visita ao Vidigal, o papa também entrou na casa de uma moradora e conversou rapidamente com líderes comunitários, demonstrando o desejo de conhecer de perto a realidade vivida pelos moradores.

Missas históricas e encontros com diferentes setores da sociedade

No Rio de Janeiro, João Paulo II celebrou uma missa campal no Aterro do Flamengo, que reuniu cerca de um milhão de pessoas. A celebração ficou marcada pela execução da canção "A Bênção, João de Deus", composta especialmente para a visita e que se tornou um dos maiores símbolos daquela passagem pelo país.

No Estádio do Maracanã, aproximadamente 150 mil pessoas acompanharam a ordenação de 76 novos sacerdotes realizada pelo pontífice.

A agenda brasileira também incluiu encontros com operários, seminaristas, religiosos, cientistas, indígenas, representantes de outras religiões e autoridades civis. Em Brasília, visitou o Presídio da Papuda. Em Salvador, esteve na comunidade de Alagados. Em Belém, visitou pacientes com hanseníase em Marituba. Em Manaus, encontrou lideranças indígenas e acompanhou o encontro das águas dos rios Negro e Solimões.

Viagem exigiu grande estrutura

Sem celulares, internet ou computadores, a organização da visita foi realizada por cartas, telefonemas e reuniões presenciais.

Além da comitiva oficial do Vaticano, cerca de 50 jornalistas acompanharam toda a viagem a bordo do avião papal. Em solo brasileiro, médicos, equipes de segurança, bombeiros, policiais e milhares de voluntários participaram da operação que levou João Paulo II de Norte a Sul do país.

As diferenças climáticas também chamaram atenção. Durante a viagem, o pontífice enfrentou temperaturas próximas de 4°C em Porto Alegre e calor superior a 45°C em Manaus, onde precisou receber atendimento médico antes da última missa por causa das altas temperaturas.

Despedida emocionada

Ao encerrar a visita ao Brasil, em Manaus, João Paulo II afirmou que deixava o país levando saudades e agradeceu o carinho recebido pelos brasileiros.

Na despedida, fez um pedido que atravessou as décadas e continua sendo uma das frases mais lembradas de sua passagem pelo país:

"Que as vossas portas que se abriram para mim com amor e confiança permaneçam largamente abertas para Cristo. Será minha alegria plena."

A primeira visita de João Paulo II ao Brasil permanece como um dos maiores acontecimentos religiosos da história do país. Ao longo de seu pontificado, ele retornaria outras três vezes, consolidando uma relação de proximidade com os brasileiros e deixando um legado que continua vivo mais de quatro décadas depois.

Antonio Mendonça/ Catve

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