Crédito: Gabi Lira/Proibida reprodução sem autorização
Quantas peças de jeans você tem no guarda-roupa? Talvez seja difícil responder.
Mas existe uma boa chance de que alguma delas tenha sido produzida no Paraná.
Presente no dia a dia de trabalhadores, estudantes, empresários e consumidores de todas as idades, o jeans permanece como uma das peças mais populares da moda brasileira. Por trás de cada calça, bermuda ou jaqueta existe uma cadeia produtiva que movimenta bilhões de reais, gera milhares de empregos e passa por uma profunda transformação impulsionada pela tecnologia e pela busca por produtividade.
Em Quedas do Iguaçu, no Oeste do Paraná, essa evolução pode ser vista dentro das fábricas. Máquinas modernas dividem espaço com costureiras experientes. Equipamentos importados realizam processos que antes dependiam exclusivamente do trabalho manual. E a produtividade tornou-se palavra-chave para um setor que precisa competir não apenas com empresas nacionais, mas com produtos vindos de diferentes partes do mundo.
"Quando a empresa foi fundada, em 1985, produzia cerca de 20 mil peças por mês. Hoje são aproximadamente 800 mil peças mensais. É uma evolução construída ao longo de mais de 40 anos [...] Hoje o grupo tem três marcas: Max Denim, Teezz e Ouzzare. Cada uma atende um público diferente, mas o nosso carro-chefe continua sendo o denim, um tecido que faz parte da cultura do brasileiro", explica a estilista Jéssica Budi.
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Uma indústria bilionária
O tamanho da cadeia têxtil e de confecção brasileira ajuda a entender a importância do setor.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o Brasil reúne aproximadamente 25,7 mil empresas, emprega mais de 1,3 milhão de trabalhadores diretos e movimenta mais de R$ 220 bilhões por ano.
A produção nacional ultrapassa 5,4 bilhões de peças de vestuário anuais, tornando o país uma das poucas nações do mundo que possuem uma cadeia completa, desde a produção da matéria-prima até a confecção das peças prontas.

O Paraná entre os gigantes da confecção
Dentro desse cenário, o Paraná ocupa posição de destaque. O estado é atualmente o quarto maior da cadeia têxtil e de confecção brasileira, atrás apenas de São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais. A participação paranaense representa cerca de 7,3% do faturamento nacional, com movimentação estimada em R$ 16 bilhões.
Além disso, o setor emprega mais de 62 mil trabalhadores formais, dos quais aproximadamente 48 mil atuam diretamente na confecção de roupas. Para Fernando Valente Pimentel, diretor-superintendente da Abit, essa relevância não surgiu por acaso. "O Paraná tem uma grande tradição de produzir vestuário e também conta com uma produção importante de têxteis."
Segundo ele, o desenvolvimento industrial do Sul do país, aliado à cultura empreendedora da região, ajudou a consolidar o Paraná como um dos principais polos nacionais da atividade.
"O Paraná continua tendo uma posição extremamente relevante e acredito que continuará a ter, dado o seu empreendedorismo, a qualidade da sua mão de obra e a qualidade dos seus empresários."
Pimentel destaca ainda que a força da indústria têxtil e de confecção está relacionada à própria formação econômica da região Sul, marcada historicamente pela presença da indústria na geração de riqueza e desenvolvimento.

A força do Oeste do Paraná
Os maiores polos estão concentrados no Norte e Noroeste do estado. Ainda assim, o Oeste também tem papel importante na atividade. Dados da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) mostram que a região concentra aproximadamente 13% dos trabalhadores do setor de vestuário do estado.
Além de Cascavel, municípios como Terra Roxa e Quedas do Iguaçu ganharam relevância ao longo dos anos. Terra Roxa é conhecida como capital nacional da Moda Bebê. Já Quedas do Iguaçu consolidou-se como um dos principais centros da atividade no Oeste paranaense.
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A economista e pesquisadora da Fiep, Mari Santos, destaca que o setor possui papel estratégico para a geração de emprego e renda. "O setor do vestuário é muito importante para a economia do Paraná, principalmente para a geração de emprego e geração de renda."
"É muito comum encontrar famílias inteiras trabalhando aqui. Em alguns casos, pais, filhos e até irmãos fazem parte da equipe. Isso faz parte da história da empresa", explica Budi.
Além de gerar postos de trabalho, a atividade ajuda a diversificar a economia regional, reduzindo a dependência de outros setores econômicos. "A economia do Paraná é muito diversificada e o interior tem uma forte presença do agronegócio. O setor do vestuário ajuda nessa diversificação e, quando há oscilações no agronegócio, ajuda a manter a renda das pessoas em muitas cidades."
A importância de Quedas do Iguaçu também aparece nos números. "Quedas do Iguaçu vem muito forte nesse segmento, sendo a segunda maior empregadora da região, atrás apenas de Cascavel."
O jeans continua forte
Entre todos os segmentos da moda brasileira, poucos são tão resistentes às mudanças de comportamento quanto o jeans. Mesmo após décadas de transformações no consumo, o produto continua sendo um dos pilares da indústria nacional.

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Dados do IEMI mostram que, apenas em 2025, o mercado brasileiro de jeanswear movimentou R$ 16,5 bilhões. No mesmo período foram produzidas 298 milhões de peças, enquanto o consumo interno atingiu 303 milhões de unidades. O varejo movimentou cerca de R$ 31,7 bilhões.
Outro dado chama atenção: atualmente, 98% das peças jeans consumidas pelos brasileiros são produzidas no próprio país. Além disso, cerca de 26% das indústrias brasileiras de confecção atuam no segmento jeanswear, evidenciando a importância do produto para o setor.

Mais empresas e transformação produtiva no setor
Um dos movimentos recentes da indústria ajuda a explicar por que o tema produtividade ganhou ainda mais relevância no setor de vestuário.
Entre 2022 e 2025, o Paraná registrou crescimento no número de estabelecimentos, ao mesmo tempo em que o mercado passou por um processo de reorganização da mão de obra.
O total de empresas no segmento passou de 4.047 para 4.092 no período, enquanto o número de empregos formais variou de 52.555 para 48.255.
O cenário reflete um ambiente de adaptação do setor, com maior presença de empresas e mudanças nos modelos de produção, impulsionados por modernização, automação e novas formas de gestão industrial.

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Para Mari Santos, a indústria vem passando por um processo de modernização. "Houve um ganho de produtividade na indústria." Segundo a economista, o setor passou a incorporar novas tecnologias, utilizar insumos mais competitivos e investir em processos mais eficientes. A transformação também ocorre em resposta a um mercado cada vez mais exigente, que demanda rapidez, personalização e qualidade.
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Dentro das confecções, uma peça percorre várias etapas até chegar às lojas. O processo envolve modelagem, corte, costura, montagem, lavagem, acabamento, passadoria, revisão e expedição.
Na Max Denim, em Quedas do Iguaçu, a produção utiliza equipamentos modernos que ajudam a aumentar a eficiência da operação.

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Tecnologia para produzir melhor
Se houve uma palavra que ganhou importância nos últimos anos, ela é produtividade. A busca por maior eficiência está presente em praticamente todas as etapas da produção. Parte dessa transformação está em equipamentos especializados. Lavadoras industriais importadas realizam etapas fundamentais do acabamento das peças, garantindo padronização, qualidade e agilidade. "Todos os anos investimos milhões de reais em tecnologia e em novas máquinas. O objetivo é aumentar nossa capacidade produtiva, melhorar a qualidade das peças e oferecer um ambiente cada vez mais seguro para os colaboradores", explica Jeferson Ioris Joris, gestor do setor de lavanderia.

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Outro destaque é uma máquina de passadoria que utiliza vapor e ar quente para modelar as peças antes do acabamento final. O equipamento ajuda a reduzir etapas manuais e aumenta a produtividade do processo.
Segundo Mari Santos, a busca por inovação tornou-se essencial para a competitividade do setor. "É importante que o setor do vestuário busque inovação e máquinas que ajudem no processo produtivo para concorrer com o produto importado."

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O desafio da concorrência internacional
Enquanto as fábricas investem em produtividade, a concorrência também aumenta. Nos últimos anos, plataformas internacionais como Shein e Temu ampliaram sua presença no mercado brasileiro. Os reflexos aparecem nos números. Em 2025, as importações de jeans cresceram 16,9%.
Segundo a Abit, a competição deixou de ocorrer apenas entre fabricantes nacionais e passou a envolver plataformas globais que acessam diretamente o consumidor brasileiro.
Para Mari Santos, os efeitos são percebidos pelas empresas do setor. "É claro que Shein e outras marketplaces impactam na venda do produto final." Apesar da pressão, ela acredita que a indústria brasileira mantém vantagens competitivas.
"Os consumidores estão atentos principalmente à questão da qualidade do produto. O setor do vestuário do Paraná é muito bom em trazer produtos de qualidade para atender o nosso mercado consumidor."

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O desafio da mão de obra
A concorrência internacional não é a única preocupação das empresas. Encontrar trabalhadores qualificados tornou-se uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas confecções. "Hoje a gente tem esse problema com mão de obra qualificada."
Segundo Mari Santos, empresários relatam dificuldades para contratar profissionais e reduzir a rotatividade dentro das fábricas. Treinar novos colaboradores exige tempo e investimento, tornando a retenção de talentos um desafio permanente. Para ela, a tecnologia não substitui o trabalhador, mas ajuda a aumentar sua eficiência.
"Eu não acredito que a tecnologia venha substituir o trabalhador, mas ajudar o trabalhador a ter um ganho de produtividade."

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Mais valor agregado, menos disputa por preço
Se competir apenas pelo menor preço é cada vez mais difícil, muitas empresas passaram a apostar na diferenciação. Modelagens exclusivas, acabamentos especiais, personalização e qualidade dos materiais são estratégias adotadas para agregar valor às peças.
Mari Santos avalia que esse movimento é uma tendência importante para o setor. "Um produto pode ter maior valor agregado se ele for trabalhado de uma forma diferenciada."
A lógica é simples: quanto maior o valor percebido pelo consumidor, menor a dependência de uma disputa baseada exclusivamente em preço.
Apesar da pressão, empresários do setor acreditam que qualidade, agilidade e conhecimento do mercado local continuam sendo diferenciais importantes. "A concorrência faz parte de qualquer negócio. Ela nos desafia a evoluir todos os dias. O nosso foco é entregar um produto de qualidade, com um preço competitivo e muito cuidado em cada etapa da produção", explica Joris.

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O futuro da confecção
Para especialistas e empresários, o futuro do setor passa por inovação, produtividade e adaptação. Automação, inteligência artificial, rastreabilidade, sustentabilidade e economia circular estão entre as tendências que já começam a transformar a indústria.
A busca por eficiência também atende às exigências ambientais e de mercado, cada vez mais presentes nas decisões de consumidores e empresas. O desafio não é apenas produzir mais. É produzir melhor.
Em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado, as confecções do Oeste do Paraná mostram que tecnologia, qualificação e capacidade de adaptação podem ser tão importantes quanto a tradição construída ao longo de décadas. E é justamente nessa combinação entre experiência e inovação que a indústria regional busca costurar seu futuro.
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