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Operação Prato: quase 50 anos depois, os mistérios que ainda desafiam explicação na Amazônia

Entrevista ao Portal Catve.com revisita um dos episódios mais conhecidos da ufologia brasileira


Em 1977, pescadores da Ilha de Colares deixaram de sair para o rio durante a noite. O motivo não era uma tempestade nem a ameaça de animais selvagens. Segundo dezenas de relatos registrados pela Força Aérea Brasileira, luzes misteriosas cruzavam o céu da Amazônia e, em alguns casos, eram acusadas de ferir moradores.

Há quase cinco décadas pesquisando relatos de objetos voadores não identificados, o ufólogo Edison Boaventura revelou detalhes das vivências como pesquisador.

Em entrevista exclusiva à Amanda Flores, do Portal Catve.com, o pesquisador revisitou alguns dos episódios mais marcantes da ufologia brasileira, com destaque para a Operação Prato, investigação conduzida pela Força Aérea Brasileira na Amazônia durante a década de 1970. Ao longo da conversa, Boaventura apresentou fotografias, documentos militares e recortes de jornais que integram seu acervo pessoal de pesquisa.

O que faz um ufólogo?

A ufologia é uma área dedicada à coleta e análise de relatos envolvendo objetos voadores não identificados (OVNIs) e outros fenômenos considerados incomuns.

Boaventura conta que ingressou nesse campo após uma experiência pessoal.

"Eu sou ufólogo há 46 anos. Entrei na ufologia depois de ter avistado um objeto voador não identificado na cidade do Guarujá, no litoral de São Paulo, em 1981."

Segundo ele, a partir daquele episódio foi criado o Grupo Folclore do Guarujá, dedicado à investigação de casos considerados fora do comum.


Edison Boaventura pesquisa relatos de OVNIs há 46 anos e mantém um dos maiores acervos particulares sobre ufologia no Brasil | Arquivo pessoal

Operação Prato: o maior caso investigado pela Força Aérea Brasileira

Entre os temas abordados durante a entrevista, o principal foi a Operação Prato, investigação conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) no Pará entre 1977 e 1978.

O caso ficou conhecido após centenas de moradores relatarem o aparecimento de luzes que sobrevoavam comunidades ribeirinhas da região amazônica.

Segundo Boaventura, os moradores associavam os fenômenos a ataques que deixariam marcas pelo corpo. "Eram luzes que apareciam no Norte do Brasil e atacavam as pessoas, jogavam um foco de luz em cima das populações ribeirinhas", explicou o pesquisador.

Esses relatos começaram a ganhar força em 1976, inicialmente no Maranhão. Em seguida, os registros se espalharam para o Pará, atingindo cidades como Vigia, Viseu, Ananindeua e principalmente a Ilha de Colares, local que se tornaria o principal foco das investigações militares.

O pesquisador afirma que os fenômenos continuaram sendo observados nos anos seguintes e avançaram em direção ao Amazonas. "Os primeiros fatos e a intensificação foram em 1977, mas foi até 1984. A gente teve ataques, por exemplo, na região de Manaus também em 1981 e 1982", relatou.

Segundo ele, décadas depois ainda há moradores da região que afirmam vivenciar episódios semelhantes. "Em 2023 estivemos lá entrevistando testemunhas que foram vítimas em 1977 e que ainda estavam vivas. Elas confirmaram que continuam tendo contato com esse fenômeno."

Os ferimentos que assustaram a população

Um dos aspectos mais conhecidos da Operação Prato envolve os relatos de pessoas que afirmavam ter sido atingidas por feixes luminosos vindos dos objetos observados na região. 

O caso ficou conhecido como "Chupa-Chupa" porque, segundo os moradores, quem era atingido dizia perder as forças e a energia do corpo. 

Algumas vítimas relataram pequenas perfurações, manchas escuras, queimaduras e marcas semelhantes a furos na região do tórax, pescoço e braços. Fotografias apresentadas por Boaventura mostram lesões atribuídas pelas testemunhas aos episódios ocorridos durante o período da operação.



Fotografias apresentadas por Boaventura mostram marcas atribuídas por testemunhas aos episódios conhecidos como "Chupa-Chupa" | Arquivo

Boaventura afirma que esses relatos foram registrados em jornais da época e também aparecem em documentos produzidos durante as investigações. Segundo ele, as lesões geraram medo principalmente entre pescadores e moradores de comunidades ribeirinhas, que dependiam da atividade noturna para sobreviver.

"A maioria dessas populações vivia da pesca noturna e era justamente durante a noite que esses fenômenos atacavam."

Na época, moradores procuraram delegacias, prefeituras e autoridades em busca de ajuda. Diante da repercussão, a Aeronáutica iniciou uma investigação oficial.

Documentos hoje disponíveis no Arquivo Nacional (inserir link) mostram que militares registraram depoimentos, fotografias e relatórios sobre os fenômenos observados na região.


Recortes de jornais da época mostram a repercussão dos relatos registrados no Pará durante a Operação Prato | Arquivo

Quem foi o militar que liderou a investigação?

A Operação Prato foi comandada pelo então capitão da Aeronáutica Uyrangê Bolívar Soares Nogueira de Hollanda Lima, que mais tarde alcançaria o posto de coronel.

Segundo Boaventura, foi Hollanda quem batizou oficialmente a investigação em referência ao formato tradicionalmente associado aos chamados discos voadores. "O Prato era para justificar o formato do disco", explica. 

O pesquisador afirma que o militar permaneceu durante meses acompanhando os relatos na Ilha de Colares, considerada o principal epicentro do fenômeno.

"Eles fizeram vigílias e tiveram encontros, filmagens e fotografias desses objetos."

O homem que mudou de posição

Ao longo dos anos, Hollanda se tornou uma das figuras mais conhecidas da ufologia brasileira por ter concedido entrevistas relatando experiências vividas durante a operação.

Segundo Boaventura, inicialmente o militar chegou à região com postura cética, mas a convivência com testemunhas e os episódios presenciados durante a operação teriam alterado sua percepção sobre o fenômeno.

Décadas depois, Hollanda concedeu entrevistas relatando experiências vividas durante a investigação, tornando-se um dos personagens mais conhecidos da história da Operação Prato.

"Ele era um militar preparado para investigar. Não foi para acreditar. Foi para descobrir o que estava acontecendo."


Coronel Uyrangê Hollanda foi um dos principais responsáveis pela investigação da Operação Prato | Reprodução

Fotografias, documentos e registros

Durante a entrevista, Boaventura mostrou documentos e fotografias que, segundo ele, fazem parte do conjunto de registros relacionados ao caso.

Ele afirma que a investigação gerou milhares de páginas de documentação. "Foram centenas de fotografias desses objetos luminosos. Tem foto até de dia."

Parte desse material foi posteriormente incorporada ao acervo do Arquivo Nacional (inserir link), que mantém documentos liberados pela Aeronáutica relacionados à Operação Prato.


Documentos apresentados pelo pesquisador registra observações de objetos voadores não identificados na região amazônica | Arquivo

Boaventura afirma que a investigação produziu um dos maiores acervos já reunidos pela Força Aérea Brasileira sobre fenômenos aéreos não identificados.

Segundo ele, além das fotografias, militares também realizaram registros em vídeo. "Foram 15 horas de filmagens em Super-8 e 16 milímetros."

O pesquisador cita especialmente o trabalho do sargento Flávio Costa, responsável por parte dos registros realizados durante a operação.

Grande parte desse material permanece cercada de interesse entre pesquisadores da área, embora, segundo Edison, milhares de vídeos ainda sejam mantidos sob sigilo.


Imagem atribuída por pesquisadores a registros realizados durante a investigação | Arquivo

Turma do Lambe-Lambe

Entre os militares envolvidos na coleta de informações estava um grupo que ficou conhecido informalmente como "Turma do Lambe-Lambe".

Segundo Boaventura, o apelido fazia referência aos fotógrafos da época e acabou sendo associado à equipe responsável por registrar os fenômenos observados na região.

"Era o pessoal que fazia os registros fotográficos e acompanhava as vigílias. Foi uma equipe criada especificamente para registrar aquilo que estava acontecendo", explicou o pesquisador.

De acordo com ele, os integrantes da equipe participaram de observações de campo, entrevistas com testemunhas e da produção de parte do material fotográfico que mais tarde se tornaria um dos acervos mais conhecidos da ufologia brasileira.

O desenho feito por testemunha

Além das luzes observadas no céu, algumas testemunhas afirmaram ter visto figuras associadas aos objetos. Boaventura apresentou à reportagem um desenho produzido por um morador do Maranhão durante a década de 1970.

Segundo ele, a ilustração foi feita após a testemunha relatar ter observado uma luz projetada por um objeto voador. 

O pesquisador afirma que diferentes testemunhas descreveram características variadas para esses supostos ocupantes.


Desenho foi produzido por uma testemunha após relatar um suposto encontro com um objeto luminoso na década de 1970 | Arquivo

Interesse internacional

Boaventura afirma que o caso despertou atenção fora do Brasil. Segundo ele, pesquisadores estrangeiros, jornalistas e representantes de outros países estiveram na região amazônica durante o período dos acontecimentos.

"Aquilo chamou a atenção de outros países."

O ufólogo também afirma que existem relatos sobre a aquisição de fotografias e negativos produzidos durante as investigações por pessoas ligadas aos Estados Unidos.

As alegações não possuem comprovação pública conclusiva, mas fazem parte da narrativa defendida por pesquisadores da ufologia há décadas.


Trecho de publicação citada por Boaventura menciona o interesse internacional pelos registros produzidos na Amazônia | Arquivo

Revelação extraterrestre?

Ao final da entrevista, Boaventura compartilhou sua visão sobre o futuro das pesquisas relacionadas ao tema. Segundo ele, a tendência mundial é de ampliação da divulgação de documentos governamentais ligados ao assunto.

"A gente vive hoje um momento que é a era da revelação."

O pesquisador acredita que novas informações poderão ser divulgadas nos próximos anos, embora reconheça que muitas questões permanecem sem resposta.

Mas por que ainda existem dúvidas?

Apesar de milhares de páginas terem sido liberadas pelo Arquivo Nacional ao longo das últimas décadas, pesquisadores da área afirmam que parte do material citado nos próprios relatórios da Operação Prato nunca foi tornada pública.

Durante a entrevista, Edison Boaventura afirmou que o principal questionamento envolve registros que teriam sido produzidos pelos militares durante a investigação.

"Existem relatórios mencionando fotografias, filmes e observações que nunca apareceram publicamente."

Segundo o pesquisador, essa é uma das razões pelas quais o caso continua despertando interesse quase 50 anos depois dos acontecimentos.

Para os ufólogos, a documentação disponível representa apenas parte do material produzido durante a operação. Já para os órgãos oficiais, não há confirmação pública da existência de outros arquivos além daqueles já encaminhados ao Arquivo Nacional.

"Se tudo foi liberado, por que ainda existem referências a materiais que ninguém encontrou?", questiona Boaventura.


Onde acessar os documentos?

Parte dos documentos relacionados às investigações da Aeronáutica sobre objetos voadores não identificados está disponível para consulta pública.

O acervo do Arquivo Nacional reúne relatórios, fotografias e outros registros produzidos durante apurações oficiais, incluindo materiais ligados à Operação Prato.

Já o pesquisador Edison Boaventura também publica conteúdos sobre o tema em seu canal no YouTube, onde aborda casos e documentos relacionados às investigações.



Amanda Flores sob supervisão de Alexandra Oliveira | Catve.com

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