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O conflito entre EUA e Irã completa dois meses, e se Donald Trump, em um cenário hipotético, apostou em uma resolução ágil, o desenrolar de um conflito prolongado expõe justamente o oposto: uma leitura incompleta não apenas do adversário, mas da capacidade do próprio mercado de absorver choques desse tipo.
O Irã não é um oponente convencional. Sua força se manifesta de forma difusa, por meio de uma rede de influência que atravessa o Oriente Médio (do Hezbollah, no Líbano, às milícias no Iraque e aos Houthis, no Iêmen). Soma-se a isso a proximidade com o Estreito de Ormuz, um dos pontos mais sensíveis do fluxo global de petróleo. Na prática, isso cria um ambiente em que o conflito dificilmente se resolve de forma direta e rápida. Ele se espalha, se adapta e, sobretudo, mantém um nível constante de tensão sobre um ativo crítico: a energia.
É justamente aqui que o erro de cálculo ganha maior relevância econômica. O petróleo deixa de ser apenas um termômetro de risco e passa a ser o principal canal de transmissão do conflito para o resto do mundo. Mesmo sem uma interrupção total da oferta, o simples risco de disrupção já é suficiente para elevar prêmios e sustentar preços em patamares mais altos. E diferente de outros choques, o mercado tem encontrado dificuldade em "normalizar" essa dinâmica.
Há, de fato, uma tentativa de dar o benefício da dúvida (tratar o conflito como mais um evento geopolítico que, com o tempo, será precificado e absorvido). Mas essa adaptação exige previsibilidade mínima, algo que não tem se materializado. Cada novo episódio, cada escalada indireta, reacende incertezas e impede que o mercado encontre um novo equilíbrio estável.
As consequências disso nos ativos financeiros são diretas. O petróleo pressionado contamina expectativas de inflação, especialmente em economias já sensíveis ao preço de energia. Bancos centrais, que poderiam estar mais próximos de ciclos de flexibilização monetária, passam a adotar uma postura mais cautelosa. O resultado é um ambiente de juros mais altos por mais tempo, um fator que reprecifica praticamente todas as classes de ativos.
Nos mercados de renda variável, isso se traduz em compressão de múltiplos e maior volatilidade, sobretudo em setores mais dependentes de custo de capital. Já em renda fixa, o movimento é ambíguo: ao mesmo tempo em que há busca por segurança, o risco inflacionário limita o fechamento das curvas. Em mercados emergentes, o impacto tende a ser ainda mais sensível, com pressão cambial, saída de capital e encarecimento do financiamento externo.
O ponto central é que o mercado até tenta se acostumar com o conflito e transformar o risco em "ruído de fundo". Mas, sem clareza sobre duração, intensidade ou possíveis desdobramentos, esse processo fica incompleto. E, sem essa ancoragem, o prêmio de risco permanece elevado.
Para os Estados Unidos, isso adiciona uma camada extra de complexidade. O custo do conflito deixa de ser apenas militar ou político e passa a ser também financeiro, com impactos indiretos sobre inflação, crescimento e condições financeiras domésticas. O que poderia ser interpretado como uma demonstração de força, rapidamente absorvida pelo mercado, se transforma em uma fonte persistente de incerteza.
No fim, o possível erro de cálculo não está apenas em subestimar o tempo do conflito, mas em superestimar a capacidade do mercado de se adaptar a ele. Quando o petróleo entra no centro da equação, a margem para previsibilidade diminui, e o custo dessa incerteza se espalha por toda a economia global.
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Ayslan Guetner é um profissional do mercado financeiro especialista em investimentos, apaixonado por finanças, administração, economia, história e geopolítica.
Antes de ingressar no mercado financeiro, trabalhou como consultor financeiro, desenvolvendo estratégias para nortear a direção das empresas.
texto de Ayslan Guetner
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