A lição de Tejon ao agro nacional, enuncia Xico Graziano

Agro brasileiro carrega imagem ruim Rixas no setor são contraproducentes

25 de maio de 2021 | 09h35 | Atualizado há 193 dias

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O brilhante José Luiz Tejon, maior professor do marketing rural brasileiro, escreveu dias atrás um magnífico artigo intitulado "O agro procura um pacificador". Deu uma verdadeira lição ao agro nacional.

Sua atitude adveio após lecionar, aqui no país, para uma turma de 40 alunos estrangeiros, matriculados na gestão sustentável de alimentos. Conforme nos relata Tejon, esses jovens vêm conhecer o Brasil mas chegam com uma percepção muito ruim, de que produzimos carne desmatando a Amazônia, de que nossa agricultura esgota os recursos naturais. Carregam, enfim, uma péssima imagem sobre nosso mundo rural.

Exemplo de superação existencial -quem ainda não leu seu incrível livro, O Voo do Cisne, deveria fazê-lo, Tejon tomou coragem para fazer um libelo em defesa da renovação de ideias e posturas na agropecuária nacional.

Clama ele por líderes que não adorem a ideia da briga de rua, dos palavrões e do fazer a guerra. No fundo, significa dizer um não às reações, advindas do agro antigo, contra a agenda agroambiental instalada no século 21.

Mago da comunicação, Tejon utiliza de seu poder de convencimento para puxar a orelha das lideranças rurais como ninguém teve a coragem de fazer antes. Sua síntese: chega de ser depreciativo, vamos ser propositivos. E utilizar a linguagem correta para valorizar nosso produto.

O corolário do que afirma Tejon é que o dano de imagem do agro nacional é causado por dentro do próprio setor produtivo. Dói reconhecer, mas é verdadeiro.

Acontece que o mundo de antanho não aceita, nem ao certo compreende, que as novas formas de produção e comercialização de alimentos exigem requisitos técnicos e éticos distintos daqueles do século passado. Falar em tendência ESG (Environmental, Social and Governance Ambiental, Social e Governança, em tradução), então, soa aos antigos como uma capitulação aos interesses externos.

Criados no tempo das mercearias, certos agricultores não se acostumam ao mundo atual das gôndolas, onde manda o desejo do consumidor, não mais os caprichos do atacadista. Alimentos saudáveis exigem meio ambiente equilibrado: esse é o preceito do mercado contemporâneo.

Tejon sabe, todos nós sabemos, que os franceses, alemães e tais escondem seus interesses comerciais quando defendem a Amazônia e atacam o agricultor brasileiro. É óbvio. Nós, afinal, estamos conquistando espaços de comércio por eles dominados há tempos. Somente os inocentes desconhecem as razões competitivas que movem a agenda global da sustentabilidade.

Mas também é cristalino e verdadeiro que os críticos, externos e internos, do agro brasileiro se conectam com a percepção ecológica da opinião pública, que odeia saber que a Amazônia está sendo criminosamente derrubada, seja por fazendeiros, madeireiros ou mineradores.

Afinal, alguém defende, pouco importa as mãos que seguram a motosserra, o desmatamento ilegal?

Rixas contra os europeus, os norte-americanos ou os chineses, qualquer que seja o motivo, significam lutar contra nós mesmos. Altercações contra o ambientalismo, qual seja a justificativa, significam uma insanidade, política ou econômica. Um tiro no pé do agro nacional.

Esse é o maior ensinamento de Tejon.

Pois bem: 3 dias após o artigo de Tejon ser publicado, em 21 de maio de 2021, Jair Bolsonaro chegava na capital federal, montado a cavalo, em manifestação promovida, a pedido, por lideranças rurais. O ato, intitulado Eu autorizo, presidente, enaltecia o militarismo.

Aos milhares, os fazendeiros presentes davam um grito de guerra. Beligerantes, vociferavam contra os comunistas do STF (Supremo Tribunal Federal) e xingavam os ambientalistas. Vamos para cima deles, discursavam, inflamados.

O ato diverge, totalmente, do movimento do GTPS (Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável), que nesses dias se manifestou, em reunião com a ministra da agricultura Tereza Cristina, em repúdio à grilagem de terras, ao trabalho escravo e infantil, à invasão de terras indígenas e ao desmatamento ilegal.

Aliás, na mesma semana, Marcello Brito, presidente da ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio) e expoente da Coalizão Clima, Florestas e Agricultura, ao condenar o desmatamento criminoso no país, perguntava: A quem mais interessa transparência, senão aos honestos?

Vou colocar o dedo na ferida: fermenta uma terrível disputa no agro brasileiro, fazendo crescer uma rixa horrível que diferencia produtores tradicionais, apegados aos valores conservadores, de agricultores tecnológicos, conectados no mundo global.

Superar essa encrenca, meio política, meio existencial, exige prestar atenção no dito de Tejon. O agro precisa de um pacificador, não de incendiários.

Falando em harmonia, a indicação do engenheiro agrônomo Alysson Paolinelli ao prêmio Nobel da Paz 2021 recebeu o endosso de líderes cooperativistas de 24 nações. Idealizador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), 84 anos, o ex-ministro da agricultura (1974-79) é considerado o pai da moderna agricultura brasileira.

Enfrentar a fome mundial ajuda a garantir a paz no mundo. E o Brasil, com seu modelo tropicalizado de agropecuária, lidera essa tarefa virtuosa. Paolinelli, um pacato e inteligente mineiro, é o maior exemplo da lição de Tejon.

Será que a apreenderemos?
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