Recordar é viver! Paulinho Cascavel - A lenda!

Em um passado não muito distante, de Brasil a Portugal, dentro da área eu fui mortal

16/03/2015 11h20 | Atualizado em 16/03/2015 11h22
Paulinho Cascavel é um desses caras que deveria trazer no seu peito os dizeres acima, mas é lógico que assim não está por razões óbvias, e é por isso que cabe a nós, a sensibilidade de trazer a memória essa bela história que poeticamente foi escrita por ele nos gramados.

Hoje me sinto feliz por conversar com esta fera, que tem uma humildade incrível e nos fala da sua carreira vitoriosa no futebol e na vida.

Perfil

Paulo Roberto Bacinello, nasceu em 29/09/1959 em Santo Antônio da Platina/PR, filho de João e Olviles Maria (in memorian), mudou-se para Curitiba com seus pais em 1970 e revela que seu inicio no futebol foi um acaso, um presente do destino.


De peru a estrela principal

"Morando em Curitiba, eu era vizinho de um dentista que tinha dois filhos, mais ou menos da minha idade e então eu jogava bola com eles na rua e nos campinhos de futebol de bairro, e sempre me destacava, embora não jogasse muito bem, fazia muitos gols, e por coincidência o pai dos meninos além de dentista era também treinador da base do Atlético Paranaense e eu ia com eles de "peru" para os treinos e até que fui convidado a treinar, me saí bem, a partir de então comecei a treinar oficialmente na escolinha do Clube Atlético Paranaense, isso foi em 1971 permanecendo até 1976". relata Paulinho.


A mão de um pai

Filho de uma família humilde, por pouco Paulo Roberto não desistiu do futebol, como irmão mais velho, aos 18 anos sentia o peso da responsabilidade, pensou em largar o futebol e arrumar um emprego para ajudar seu pai no sustento da família, mas seu João teve um papel muito importante na vida e na carreira de Paulinho, chamou para si a responsabilidade, confortou o filho para que continuasse com seu sonho, e toda família o apoiou no que foi preciso para que então pudesse escrever esta bela história de um grande vencedor.

Paulinho foi um dos primeiros juniores a ser vendido na época, seu destino foi o Pinheiros (que mais tarde se tornou Paraná Clube), ainda com idade de júnior tonou-se profissional em 1978, e no ano seguinte, 1979 ainda com 19 anos veio para a cidade de Toledo/PR juntamente com o técnico Lori Sandri e 50% da equipe na parceria da equipe da capital com Toledo Esporte Clube para disputa do Campeonato Paranaense daquele ano.


No Toledo

Realizou um excelente campeonato e ficou na mira do CEC - Cascavel Esporte Clube para disputa do campeonato paranaense do ano seguinte, realizaram confrontos memoráveis no famoso clássico da Soja e começa assim, a trajetória vitoriosa de Paulinho Cascavel - O mago da área!

Foi um início de uma rivalidade muito grande entre Toledo e Cascavel. O Toledo conseguiu montar uma grande equipe com Vaquinha e Cia, entre tantos acontecimentos teve um jogo entre Cascavel e Toledo que o memorável atacante Vaquinha, após fazer um gol do Toledo, foi na linha de fundo próximo a bandeirinha de escanteio e deu uma sambadinha, provocando a fanática torcida cascavelense, foi uma loucura, os torcedores quase invadiram o campo e todos os jogadores do Toledo ficaram temerosos, nunca ninguém tinha feito tal provocação.

Fiz questão de citar o Vaquinha, por se tratar de mais um grande jogador, que por aqui passou e fez história, chegou na região no final da década de 70, vindo também de Curitiba e mais tarde estabeleceu-se na acolhedora cidade de Toledo constituindo família e fazendo amigos.

A semelhança entre ambos não para por aí; os dois levaram para o altar uma miss (título que se dá primeira colocada num concurso que elege a jovem mais bonita de um lugar ou a que obteve a preferência da maioria dos julgadores, com relação a outras), Paulinho Cascavel casou-se com a miss Cascavel e Vaquinha casou-se com a miss Campina da Lagoa, eles realmente não eram fracos!



De volta para Curitiba

Neste mesmo ano, retornou para Curitiba emprestada a sua antiga casa, a do início da sua carreira, fez parte do elenco do Atlético Paranaense, disputando o nacional pelo rubro negro. Enfrentou grandes equipes, grandes jogadores, fez gols e ficou ainda mais valorizado.


A chegada no Cascavel Esporte Clube

Em 1980 ano seguinte, novamente o Pinheiros se licenciou do campeonato estadual e 60% da equipe veio para o Cascavel e compôs juntamente com seus companheiros o tango de uma nota só, eles tocavam e os seus adversários dançavam. Paulinho assegura que foi no CEC que sua carreira deu um grande salto, não é exagero dizer que até hoje, não se formou outro time como aquele do Cascavel Esporte Clube, que sagrou-se Campeão Paranaense em 1980, já tivemos outros bons times por aqui, mas nenhum igual aquele, digamos que equipe do CEC de 1985 chegou próximo, mas não foi perfeito como outrora.

E neste enredo abro um parêntese para dizer que lamento por não ter tido a oportunidade de ter ido ao estádio Teodoro Colombelli - o popular Ninho da Cobra no ano que o Cascavel Esporte Clube levantou o caneco, pois tinha sete anos, morava com meus avós em um bairro afastado da cidade, e face a escassez que vivíamos nem me atrevia pedir para que me levasse para assistir aos jogos, sobre pena de ser repreendido. Só escutava no radinho de pilha o narrador que gritava gol, e foram muitos só do Paulinho Cascavel foram 19, que foi vice-artilheiro do certame perdendo apenas para Everton do Londrina que encerrou a competição na artilharia com 20 tentos.


Uma contusão que lhe custou a artilharia

Acredito que Paulinho só não foi artilheiro do campeonato por conta de um incidente que ocorreu dentro da área, em um lance de cabeceio no famoso clássico da Soja, "Foi em um lance totalmente acidental, em uma cobrança de escanteio de Sérgio Ramos, quando cabeceei pro gol, o zagueiro Bosco tentou afastar a bola e acabou acertando em cheio o meu rosto, tive lesão no maxilar e afundamento no malar, sai desacordado de campo, só me lembro do Otil Bandeira que me prestou os primeiros socorros e me levou para o hospital, fiquei seis jogos fora, por isso acredito que por isso não superei o Everton na artilharia", assegura.


O artilheiro elegante

Com faro de gol, oportunista e um cabeceio fatal, o atacante Paulinho Cascavel não demorou muito a se despontar no futebol do estado, pois as maiores equipes, inclusive os times das capitais sucumbiam diante do seu veneno.

De fato surgiu para o futebol no time do Cascavel, em 1982 foi destaque no futebol catarinense, sendo artilheiro pelo Criciúma no estadual com 16 gols e jogando pelo Joinvile em 1984 foi novamente artilheiro balançando as redes 27 vezes. Foi goleador no América de Rio Preto (SP) e Fluminense (RJ). Fez parte de elencos que reunia os maiores craques do futebol brasileiro e português. Quem não se lembra do grande time do Porto, da máquina do Sporting e da grande equipe do Vitória de Guimarães. Jogou contra os maiores (Maradona, Zico, Careca, Alemão, Aldair, Elzo, Mozer, Casagrande, Sócrates, Neto e etc.). Compôs equipes com os maiores, o que dizer de Rodolfo Rodrigues, Silas, Valdo, Ademir Alcântara, Valdo, Aldair etc...,cita o jogador Careca como uma referência dentro da área, gostava demais de vê-lo jogar, "inclusive somos amigos e nos falamos sempre", complementa Paulinho.


Vestiu a amarelinha

Jogou na Seleção Brasileira em um jogo de festa em Portugal, a seleção foi composta pelos jogadores brasileiros que jogavam em Portugal, montou-se uma bela equipe, Paulinho Cascavel, fez gol!


Entre o casal 20

Só se pode dizer que foi um grande jogador, se pelo menos uma vez tenha atuado no Maracanã e Paulinho Cascavel atuou pelo Fluminense, foi contratado juntamente com Doval para formar a dupla de área do pó de arroz, mas Doval acabou nem jogando e logo foi negociado, foi nesta época que estava chegando no Flu a dupla Assis e Washington, formando o famoso casal 20 e escreveram uma a bela história. E realmente entre o casal 20 não cabia mais ninguém.

Paulinho Cascavel mesmo na reserva jogou várias partidas, foi campeão e se lembra de jogos inesquecíveis e do memorável Fla-Flu, "Maracanã lotado, jogo decisivo, ninguém ganhava do Flamengo e Assis fez o gol da vitória", relembra Paulinho.



Em Portugal, a sua carreira explode

Paulinho atingiu o auge da sua carreira quando se transferiu para o futebol português, foi goleador do campeonato da primeira divisão em duas oportunidades. Com a camisa do Vitória de Guimarães, marcou 22 gols no certame de 86/87. Na temporada seguinte, 1987/88, balançou as redes 24 vezes e foi campeão nacional pelo Sporting.

Paulinho Cascavel está enraizado na história do futebol português por conta do seu excelente desempenho frente as equipes do Porto, Vitória de Guimarães e do Sporting. Existe um verdadeiro arsenal de informações publicadas, que relata a estupenda carreira deste Platinense radicado em Cascavel, que fez história nos maiores palcos do futebol do mundo, acreditem, é riquíssimo o acervo de sua bela carreira!


No Vitória de Guimarães

Sempre balançando as redes e levando o torcedor luso ao delírio, percorreu a Europa jogando contra grandes equipes que eram verdadeiras seleções, foi o maior goleador da Europa anotando cinco gols para o Vitória de Guimarães em apenas uma edição da Taça da UEFA. Junto com seus companheiros conseguiu colocar a pequena equipe do Vitória entre as maiores de Portugal e da Europa, uma visibilidade jamais conquistada pela equipe.

Na equipe de Marinho Peres, técnico brasileiro do Vitória de Guimarães naquela temporada, Paulinho Cascavel deitou e rolou, a ponto de conquistar a bola de prata como maior artilheiro do campeonato 1986/87, com 22 gols anotados. É o maior goleador da história do Vitória de Guimarães na competição européia, 5 gols no total.

No Sporting

Paulinho Cascavel deixa o Vitória de Guimarães e chega no Sporting 1987/88 para substituir Manuel Fernandes, já na sua primeira torna-se novamente artilheiro do campeonato nacional com 24 gols, permaneceu arrasador por três temporadas onde conquistou o título da super taça Cândido de Oliveira pelo Sporting. Depois destes feitos Paulinho Cascavel transferiu-se para Gil Vicente FC em 1990/91, onde por seguidas lesões o forçaram a encerrar sua vitoriosa carreira no futebol português.


O filho do craque

Guilherme Capra Bacinello, nasceu em Guimarães no dia 03 de outubro de 1986, e como não poderia ser diferente seguiu os passos do pai, tornando-se jogador profissional de futebol, de igual modo, atacante carregando nas costas o número 9, começou sua carreira na base do Vitória de Guimarães, ex clube do seu pai, mais conhecido por Cascavel, o jogador luso-brasileiro não teve muitas chances por lá, "a cobrança em cima do Guilherme era muito forte, por um lado o fato de ser meu filho abriu portas, por outro lado o peso de ser cobrado para repetir o que fiz atrapalhou o desempenho dele, mesmo sendo um excelente atleta" - destaca Paulinho Cascavel. Depois disso passou por outros clubes menores, União Torcatense, Bragança, Vila Meã, Trofense, Moreirense, Freamunde e por último Penafiel, onde fez boas campanha e grande visibilidade, fez mais de 30 gols na 2ª divisão no campeonato português, mas nunca teve oportunidade como profissional nas equipes principais fato que acabou desanimando-o, teve uma passagem pelo futebol da Grécia e em 2012 encerrou sua carreira, e hoje toca uma das empresas do pai no Mato Grosso e vive feliz como empresário.


O futebol após carreira

Paulinho Cascavel, até que ensaiou permanecer no futebol após o término da sua carreira, mas não era seu objetivo principal, nunca pensou em ser um condutor de homens, tanto que escolheu morar bem longe dos grandes centros do futebol, eixo Rio-São Paulo, veio para Cascavel, bem afastado do meio emergente da bola, e entende que para ser o diferencial tem que estar no centro nervoso. Montou uma escolinha de futebol na cidade, muito mais de cunho social, e entende que para revelar atleta e para se tornar um grande celeiro é necessário dedicação exclusiva, fato que o fez parar com o projeto e dedicar-se às suas empresas, frutos de muito trabalho e árduo esforço.

Defende o futebol na cidade, parabeniza o esforço dos empresários em ajudar manter uma boa equipe no campeonato estadual, e aponta que o futebol deve continuar, com uma base enxuta, com os pés no chão, dando oportunidade para os jovens valores da cidade, mas sem se iludir que se vai vender algum prata da casa por altos valores e diz: "Um clube pequeno sofre para manter uma base e bons valores, e os empresários da bola vem e levam sua pedra preciosa para os grandes times de graça, então é preciso se estabelecer uma lei que proteja essas equipes", aponta Paulinho que continua "fica difícil se manter, considerando o nosso calendário falho, onde um clube participa apenas de uma competição de três meses e fica o resto do ano parado, isto também precisa urgentemente ser ajustado para salvar o futebol dos clubes", finaliza.


De volta pra casa

Quando a carreira já estava chegando ao fim, Paulinho foi se organizando em seus investimentos na região oeste do Paraná, porque foi Cascavel o lugar onde escolheu para morar. Casado com a ex-miss Cascavel Leisa Capra Bacinello, tem dois filhos, Vitória e Guilherme (este já citado acima), é um empresário muito bem sucedido e leva uma vida tranquila, com sua família e amigos, é apaixonado pela cidade e diz que torce demais para o crescimento da cidade nos aspectos (sócio, cultural, econômico), é uma pessoa culta, politizada e de forte personalidade, aprendeu diante de tantos desafios ser grato a Deus, a família e aos amigos, disso ele não abre mão.

E para finalizar amigos, deixo neste texto transcrito um pouco do que foi a carreira do Paulinho Cascavel, para exaltar a sua bela história, para agradecê-lo pelo que foi e representa para nossa cidade. Ele levou e elevou o nome da nossa cidade para o mundo, é com toda certeza mais um ilustre cidadão cascavelense que merece nosso respeito e nosso reconhecimento. Esse sim, também merece o título de cidadão da nossa cidade!


por Geraldo Magela