Lito Cavalcanti

O campeonato acabou, mas a F-1 se recusa a parar

09/12/2019 14h50

A primeira semana depois da prova final de 2019 foi um sinal de que nada parou na Fórmula 1. A começar pelo teste dos pneus da próxima temporada, dois dias de intensa atividade na mesma pista de Abu Dhabi, onde se correu no fim de semana anterior. Pressionada pelas constantes queixas dos pilotos de que são obrigados a andar em velocidade baixa para fazer com que seus pneus durem o suficiente para as estratégias funcionarem, a Pirelli decidiu produzir para 2020 modelos um pouco menos aderentes, porém mais duráveis. Experimentados brevemente nos treinos da sexta-feira do Grande Prêmio dos Estados Unidos, os novos pneus haviam sido recebidos com críticas.

A despeito das poucas voltas dadas e dos carros não estarem regulados para extrair todo o potencial deles, os pilotos os consideraram inferiores aos de 2019, porque, como se planejara, sua aderência era inferior. Desta vez, porém, o tom das críticas foi bem mais baixo. Como já se antecipava, os carros da Mercedes dominaram a tabela de tempos, com Valtteri Bottas estabelecendo o melhor tempo do primeiro dia e o piloto júnior George Russell o do segundo.

Entre os dois, a diferença foi de apenas 0s080, o que pode ser creditado aos tipos diferentes de pneus. Enquanto o finlandês fez sua volta mais rápida usando os pneus C5 do ano passado, o inglês usou os C5 de 2020. Ou seja, uma mensagem clara para os dirigentes da Mercedes que, na falta de um de seus titulares, a solução está pronta e disponível. Em terceiro e quarto, replicando o que ocorreu em praticamente toda a temporada, ficaram as duas Ferrari, Charles Leclerc com o C5 de 2019 e Sebastian Vettel com o C5 2020. E também replicando o ano, o drama da batida de Leclerc no segundo dia, afetando negativamente a coleta de dados que servirão de base para os engenheiros com vistas ao próximo campeonato.

Os tempos do teste

1º) Valtteri Bottas, Mercedes, 1min37s124, 138 voltas, C4 2019

2º) George Russell, Mercedes, 1min37s204, 145 voltas, C5 2020

3º) Charles Leclerc, Ferrari, 1min37s401, 103 voltas, C5 2019

4º) Sebastian Vettel, Ferrari, 1min37s991, 136 voltas, C5 2020

5º) Lance Stroll, Racing Point, 1min37s999, 132 voltas, C5 2020

6º) Pierre Gasly, Toro Rosso, 1min38s166, 146 voltas, C5 2020

7º) Daniil Kvyatt, Toro Rosso, 1min38s183, 72 voltas, C5 2020

8º) Sergio Perez, Racing Point, 1min38ss434, 120 voltas, C5 2020

9º) Carlos Sainz, McLaren, 1min38s729, 112 voltas, C5 2020

10º) Esteban Ocon, 1min38s950, 205 voltas, C4 2019

11º) Alexander Albon, Toro Rosso, 1min39s181, 139 voltas, C4 2019

12º) Romain Grosjean, Haas, 1min39s526, 146 voltas, C5 2020

13º) Pietro Fittipaldi, Haas, 1min39s682, 135 voltas, C5 2019

14º) Lando Norris, McLaren, 1min39s741, 125 voltas, C5 2020

15º) Antonio Giovinazzi, Alfa Romeo, 1min39s811, 115 voltas, C5 2020

16º) Max Verstappen, Red Bull, 1min39s926, 153 voltas, C3 2020

17º) Nicholas Latifi, Williams, 1min40s188, 107 voltas, C4 2020

18º) George Russell, Williams, 1min40s368, 87 voltas, C5 2020

19º) Kimi Raikkonen, Alfa Romeo, 1min40s903, 93 voltas, C4 2019

20º) Sean Gelael, Toro Rosso, 1min41s640, 67 voltas, C4 2020

22º) Roy Nissany, Williams, 1min43s892 79 voltas, C4 2020

Russel se firma como opção

Isso tudo em uma fase em que o assunto dominante é a possibilidade de Lewis Hamilton trocar a Mercedes pela Ferrari em 2021. Se vai ou não, só se saberá ao longo do próximo ano, bem próximo do final. O hexacampeão nunca gostou de discutir seus contratos com tanta antecedência - mas dessa vez as circunstâncias o obrigam.

Mas, queira-se ou não, é impossível deixar de pensar que a atuação de Russell o colocou em situação privilegiada e aumentou a pressão sobre Leclerc e Vettel - e também sobre Bottas. Para a Mercedes, um piloto jovem e promissor como ele ameniza a saída de Hamilton; na Ferrari, a possibilidade de ter Hamilton em Maranello é mais um argumento na dura tarefa de dominar os ímpetos competitivos de Leclerc e Vettel.

A mudança de equipe do hexacampeão, caso de fato ocorra, não se origina apenas em suas aspirações, ela decorre também das inúmeras dúvidas de quem fica e quem sai da F-1 em um futuro não muito distante. A Mercedes tem contratos em vigor para 2021 como fornecedora de motores, mas não tem compromisso com a manutenção da equipe. A Honda também só se comprometeu com a Red Bull e a Toro Rosso até 2021.

O próprio Toto Wolff, chefe e acionista da escuderia alemã, alimenta as especulações ao se dizer plenamente de acordo com essa eventual mudança de Hamilton e ao comentar que a continuidade da Daimler depende de uma redução de seu investimento atual, na casa de 40 milhões de dólares (cerca de R$ 166 milhões).

Isso, porém, não combina com as avaliações do novo presidente da Mercedes, o sueco Ola Källenius, o primeiro estrangeiro a ocupar esse cargo na indústria alemã. Analisando a relação custo/benefício da F-1, Källenius se mostrou claramente favorável à continuidade da equipe - o que traz dúvidas sobre o que significam as afirmações de Toto Wolff quanto a seu futuro.

Outro ponto que deixa dúvidas sobre uma eventual mudança de Hamilton é o fato da Ferrari de hoje não ser capaz de lhe dar um carro vencedor, como ele exige. A Mercedes era ainda menos competitiva em 2013, mas ele aceitou a proposta e lá conquistou cinco de seus seis títulos mundiais.

O apelo de igualar ou superar os sete campeonatos de Michael Schumacher resgatando a Ferrari de seu jejum de títulos pode ser irresistível. A última vez em que a casa de Maranello venceu o campeonato de pilotos foi em 2017, com Kimi Raikkonen, e o de construtores foi em 2008.

Reforços da Rússia e até da Nasa

É sob essa dúvida que se encerra 2019. Em paralelo, as medidas para 2021, ano de novas regras, já estão em andamento. Na Ferrari, chega o engenheiro russo Daniil Sacharov, especialista em aerodinâmica vindo da agência aeroespacial da Rússia, a Roscomos. Ele vai trabalhar junto com o prestigioso projetista Simone Resta, repatriado depois de um período de quase ostracismo na Alfa Romeo.

Mesmo dominando a F-1 desde 2014, a Mercedes não está parada, planeja investir na parte aerodinâmica. Como esse é o único setor em que os departamentos técnicos podem conseguir alguma vantagem, a equipe alemã foi buscar reforço na NASA. Ela está em negociação com Richard M. Wright, engenheiro de sistemas e descendente direto dos pioneiros da aviação Wilbur e Orville Wright, que representam para os americanos o mesmo que Alberto Santos Dumont para nós.

Uma nova Racing Point

Também ocupou espaço a notícia não confirmada nem rejeitada de que Lawrence Stroll, o bilionário canadense que detém o controle acionário da equipe Racing Point, aproveita o momento difícil da Aston Martin para adquirir o controle da fábrica dos carros esportivos celebrizados nos filmes de James Bond, o inesquecível agente 007.

A notícia foi publicada na última terça-feira (3) pelo respeitado site racefans.net e pela revista "Autocar". A consequência imediata foi uma alta de 17 por cento das ações da montadora, após uma perda de 118,4 milhões de dólares (R$ 492 milhões) nos primeiros nove meses desse ano. A primeira medida de Stroll seria a mudança de nome da Racing Point para Aston Martin, dando-lhe a visibilidade mundial que a F-1 proporciona.

Essa aquisição implicaria na perda de um parceiro importante da Red Bull, que se denomina oficialmente Aston Martin Red Bull Racing e ostenta as asas da marca inglesa em seu aerofólio traseiro. O CEO Andrew Palmer nega (sem ênfase) que esteja procurando novas parcerias, mas não há nada que ele possa fazer contra a compra agressiva das ações na bolsa de Londres.

Inevitavelmente, as especulações se multiplicam. Uma das mais curiosas diz respeito a Lance Stroll, o filho de Lawrence. Piloto de inegável limitação, Lance deixaria o volante para se tornar diretor da equipe. Em seu lugar entraria o sueco Felix Rosenqvist, que serviu como instrutor para Lance quando ambos disputavam o campeonato europeu de Fórmula 3 pela equipe italiana Prema, que fora parcialmente comprada por Lawrence. Em agradecimento aos bons serviços, grande parte da carreira de Rosenqvist foi bancada pela família canadense. Neste ano, ele correu pela equipe Ganassi na F Indy sem alcançar o brilho esperado.

O que faz deste um bom momento para repensar os rumos de sua carreira.

Todos esses assuntos serão comentados por mim e pelo Cassio Politi no podcast Rádio Paddock, que será gravado às 20h30 dessa segunda-feira ao vivo no canal Lito Cavalcanti no YouTube.

Foto: Imagem: William West/AFP

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