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China: a economia que desafia ideologias - por Ayslan Guetner


Poucos países despertam tantas contradições quanto a China. O país abriga o maior partido comunista do mundo, mantém empresas estatais gigantescas, exerce forte controle político e censura parte significativa da informação. Ao mesmo tempo, possui bilionários, bolsas de valores, empresas privadas globais e uma das economias mais dinâmicas do planeta.

Afinal, a China é comunista ou capitalista? A resposta depende do ângulo pelo qual se observa o país.

Do ponto de vista político e institucional, a República Popular da China permanece oficialmente socialista. O Partido Comunista Chinês (PCC) detém o monopólio do poder desde 1949, não existem eleições multipartidárias competitivas em nível nacional e o Estado mantém forte influência sobre a sociedade.

Os principais setores considerados estratégicos — energia, bancos, telecomunicações, defesa e infraestrutura — permanecem amplamente sob controle estatal. Grandes empresas estatais ocupam posições centrais na economia e o governo mantém instrumentos de planejamento de longo prazo, como os planos quinquenais.

Para muitos analistas, esses elementos são suficientes para caracterizar a China como um país socialista ou comunista em sua organização política.

O próprio governo chinês se define como praticante do "socialismo com características chinesas", expressão consolidada a partir das reformas iniciadas por Deng Xiaoping no final da década de 1970.

Sob a ótica econômica, entretanto, a realidade é bastante diferente daquela observada durante a era Mao Tsé-Tung.

Hoje, a maior parte da produção industrial chinesa provém de empresas privadas ou de companhias que operam segundo mecanismos de mercado. A concorrência entre empresas é intensa, o lucro é um objetivo legítimo e milhões de empreendedores atuam livremente em diversos setores.

Empresas como Alibaba, Tencent, BYD, Huawei e Xiaomi surgiram em um ambiente que recompensa inovação, eficiência e acumulação de capital.

Além disso, a China recebe investimentos estrangeiros, participa ativamente do comércio internacional e integra cadeias globais de produção. O país tornou-se a principal potência manufatureira do mundo justamente por adotar mecanismos típicos do capitalismo.

Para diversos economistas liberais, a extraordinária redução da pobreza chinesa nas últimas quatro décadas decorre, em grande medida, da abertura econômica e da introdução de incentivos de mercado.

Talvez a interpretação mais difundida entre especialistas seja a de que a China desenvolveu um modelo híbrido. Nesse sistema, o mercado desempenha papel fundamental na alocação de recursos, na inovação e na geração de riqueza, mas o Estado mantém capacidade de direcionar setores considerados estratégicos.

O governo pode estimular determinadas indústrias, restringir outras, controlar o sistema financeiro e influenciar grandes empresas privadas quando considera necessário.

O episódio envolvendo Jack Ma e o grupo Ant Financial, em 2020, ilustra essa dinâmica. Após críticas públicas ao sistema financeiro chinês, as autoridades interromperam a abertura de capital da empresa e reforçaram a regulação do setor tecnológico, demonstrando que o poder político permanece acima do poder econômico.

Nesse sentido, alguns autores classificam a China como um modelo de "capitalismo de Estado".

Dentro da própria esquerda internacional há divergências profundas. Alguns grupos marxistas defendem que a China continua construindo o socialismo por etapas. Segundo essa visão, a utilização do mercado e da propriedade privada seria apenas um instrumento temporário para desenvolver as forças produtivas do país.

Outros críticos, inclusive dentro da tradição marxista, argumentam que a China se tornou essencialmente capitalista, pois há propriedade privada, acumulação de riqueza, desigualdade de renda e exploração do trabalho assalariado.

O debate permanece aberto inclusive entre estudiosos do socialismo.

Economistas liberais frequentemente destacam outra peculiaridade chinesa: a separação entre capitalismo e democracia liberal.

Durante décadas, muitos acreditaram que o crescimento econômico inevitavelmente levaria à abertura política. A experiência chinesa mostrou que uma economia de mercado relativamente dinâmica pode coexistir com um regime político autoritário.

Essa combinação desafia algumas das premissas tradicionais do pensamento ocidental, segundo as quais capitalismo, democracia e liberdades individuais caminham necessariamente juntos.

Então, afinal, o que a China é? A China não se encaixa perfeitamente nas categorias clássicas criadas durante a Guerra Fria.

Politicamente, o país continua sendo governado por um partido comunista que concentra o poder do Estado.

Economicamente, utiliza amplamente mecanismos de mercado, incentivos ao lucro e competição empresarial.

Institucionalmente, combina planejamento estatal, empresas públicas poderosas e iniciativa privada em larga escala.

Talvez a definição mais precisa seja a de uma economia de mercado sob comando político de um partido comunista, ou, como muitos acadêmicos preferem, um sistema de capitalismo de Estado.

Mais importante do que encontrar um rótulo definitivo é compreender que a China construiu um modelo próprio, que mistura elementos considerados incompatíveis pelas teorias tradicionais. O sucesso econômico das últimas décadas e as tensões que esse modelo produz continuam sendo um dos temas centrais da economia e da política internacional no século XXI.

No fim das contas, a pergunta "a China é comunista ou capitalista?" talvez não tenha uma resposta binária. A experiência chinesa sugere que os sistemas econômicos e políticos podem ser muito mais complexos do que as classificações convencionais permitem.

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