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Paraguai: de patinho feito à esperança? - por Ayslan Guetner


Antes conhecido pela "exportação" de bugigangas baratas e por ser alvo de brincadeiras neste sentido, o Paraguai, para alguns, tornou-se sinônimo de imposto baixo, menor burocracia e proximidade geográfica. Para outros, aparece como uma espécie de "plano B" diante da insegurança política, jurídica e tributária percebida no Brasil. Mas antes de romantizar o país vizinho, é preciso fazer uma pergunta mais honesta: quem é o Paraguai de verdade?

A resposta curta é: o Paraguai é uma economia pequena, estável em alguns aspectos, competitiva em custos, mas ainda limitada em infraestrutura, sofisticação institucional e profundidade de mercado.

Macroeconomicamente, o país tem virtudes claras. Nos últimos anos, o Paraguai manteve inflação relativamente controlada, dívida pública moderada para padrões latino-americanos e crescimento econômico geralmente superior ao de muitos vizinhos (acima de 4% ai ano). O PIB gira na casa de US$ 60 bilhões, com população próxima de 7 milhões de habitantes. A economia é fortemente ligada ao agronegócio, à energia — especialmente Itaipu —, ao comércio de fronteira e, mais recentemente, à indústria de maquila, regime que permite produzir no Paraguai com carga tributária reduzida e foco em exportação.

O grande atrativo está no sistema tributário. O país é conhecido pelo modelo "10-10-10": imposto de renda corporativo na faixa de 10%, IVA de 10% e imposto de renda pessoal também competitivo. Para empresários brasileiros acostumados com um ambiente tributário complexo, judicializado e caro, o Paraguai parece quase uma provocação. Além disso, o regime de maquila pode ser extremamente vantajoso para empresas industriais, especialmente aquelas que importam insumos, produzem no Paraguai e exportam para o Brasil ou outros mercados.

Mas há uma diferença enorme entre abrir uma empresa no Paraguai e construir uma operação eficiente no Paraguai.

A vantagem fiscal, sozinha, não paga a conta se a empresa depender de logística sofisticada, mão de obra altamente qualificada, fornecedores especializados ou acesso rápido a crédito estruturado. A infraestrutura paraguaia melhorou, mas ainda apresenta gargalos importantes. Rodovias, portos secos, energia, telecomunicações e serviços públicos variam bastante conforme a região. Cidades como Ciudad del Este, Hernandarias, Presidente Franco, Pedro Juan Caballero, Salto del Guairá e Encarnación têm atrativos por estarem próximas ao Brasil, mas cada uma possui vocação econômica, limitações urbanas e riscos próprios.

Para quem pensa em imigrar, o Paraguai também exige pragmatismo. O custo de vida pode ser menor do que em várias cidades brasileiras, a carga tributária pessoal é mais leve e a proximidade cultural ajuda. Há comunidades brasileiras relevantes, especialmente em regiões agrícolas e fronteiriças. Mas o país não deve ser visto apenas como uma extensão mais barata do Brasil. Serviços de saúde, educação, segurança, infraestrutura urbana e oportunidades profissionais variam muito. Para famílias, a decisão precisa considerar escola, plano de saúde, rede de apoio, idioma, adaptação cultural e perspectiva de renda local.

O movimento de brasileiros para o Paraguai tem fundamentos reais. Há empresários buscando eficiência tributária, produtores rurais buscando terra e previsibilidade, investidores buscando diversificação patrimonial e famílias buscando uma vida mais simples. Também há um componente emocional: parte desse interesse nasce do cansaço com o ambiente brasileiro, marcado por carga tributária elevada, insegurança regulatória e polarização política.

Mas decisões patrimoniais e empresariais não deveriam ser tomadas apenas como reação ao Brasil. Mudar para o Paraguai pode fazer sentido. Transferir uma operação para lá pode fazer ainda mais sentido em setores específicos, como indústria leve, confecções, autopeças, alimentos, plásticos, montagem, distribuição e negócios ligados ao comércio exterior. Porém, para serviços altamente dependentes de capital humano sofisticado, mercado consumidor robusto ou ecossistema financeiro desenvolvido, o ganho tributário pode ser insuficiente.

O Paraguai pode ser, de fato, uma oportunidade. É um país com estabilidade macroeconômica relativamente interessante, baixa carga tributária, posição geográfica estratégica e custo operacional competitivo. Ao mesmo tempo, é um mercado menor, com desafios institucionais, infraestrutura ainda em desenvolvimento e dependência relevante de setores como agro, energia e comércio.

Para o empresário brasileiro, talvez a melhor forma de olhar para o Paraguai não seja como "fuga", mas como estratégia.

Abandonar o Brasil por impulso, sem entender se faz sentido ter uma segunda base, uma operação industrial, um braço comercial, uma estrutura patrimonial ou até uma residência alternativa, pode ser um erro.

O Paraguai real não é o paraíso fiscal simplificado vendido em algumas conversas de fronteira. Também não é um país irrelevante ou atrasado, como muitos brasileiros ainda imaginam. É um vizinho competitivo, pragmático e em transformação.

E talvez seja justamente isso que explique o interesse crescente: enquanto o Brasil discute complexidade, o Paraguai vende simplicidade. Mas simplicidade, em negócios, só vira vantagem quando vem acompanhada de planejamento.

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