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O Japão e o risco silencioso para o mundo


Durante décadas, o Japão foi visto como uma espécie de exceção econômica: um país altamente endividado, com crescimento baixo, população envelhecida, inflação quase inexistente e juros próximos de zero. O mundo se acostumou com essa anomalia. O problema é que anomalias, quando duram tempo demais, passam a ser confundidas com normalidade.

Hoje, o Japão talvez seja um dos maiores riscos silenciosos da economia global.

A dívida pública japonesa supera com folga o tamanho de sua economia. Em condições normais, isso já seria motivo de preocupação. Mas o Japão conseguiu conviver com esse peso porque financiava sua dívida a juros muito baixos, sustentado por uma população poupadora, instituições domésticas compradoras de títulos públicos e um Banco Central disposto a manter as taxas artificialmente comprimidas.

Esse arranjo começa a ser testado.

Depois de décadas lutando contra a deflação, a inflação voltou a incomodar. Parte desse movimento vem do aumento dos custos de energia e combustíveis, especialmente relevante para um país dependente de importações. O problema é que, quando a inflação aparece em uma economia altamente endividada, o Banco Central fica preso em uma armadilha: se sobe juros para conter os preços, encarece dramaticamente o custo da dívida; se não sobe, arrisca perder credibilidade e enfraquecer ainda mais a moeda.

O mercado já percebeu essa tensão. Os juros dos títulos japoneses de 30 anos alcançaram patamares historicamente elevados. Mais importante: o diferencial em relação aos títulos americanos de mesmo prazo ficou muito pequeno. Isso muda incentivos globais.

Durante anos, o Japão foi a grande fonte de financiamento barato do mundo. Investidores tomavam recursos em ienes a custo baixíssimo e aplicavam em ativos de maior rendimento no exterior. Essa é a lógica do carry trade. Enquanto o iene permanecia fraco e os juros japoneses baixos, a estratégia funcionava. Mas, se os juros no Japão sobem e a moeda se fortalece, essa operação pode se inverter rapidamente.

E quando carry trades são desmontados, o ajuste raramente é ordenado.

Investidores vendem ativos no exterior, recompram ienes, reduzem posições alavancadas e provocam estresse em diferentes mercados ao mesmo tempo: bolsas, moedas emergentes, títulos de dívida, crédito privado e até commodities. O Japão, portanto, não é apenas uma história local. É uma engrenagem importante da liquidez global.

Há ainda o problema demográfico. Uma população envelhecida reduz o potencial de crescimento, pressiona gastos públicos e limita a capacidade de ajuste fiscal. Menos trabalhadores, mais aposentados e maior necessidade de financiamento público formam uma combinação perigosa. O país precisa crescer mais, mas sua estrutura demográfica dificulta esse crescimento. Precisa controlar a dívida, mas seus gastos tendem a aumentar. Precisa normalizar juros, mas não pode fazê-lo sem colocar pressão sobre o próprio Estado.

Esse é o dilema japonês: a economia precisa de remédio, mas talvez não suporte a dose.

Um colapso da economia japonesa poderia representar uma reprecificação global do risco. O Japão é um dos maiores credores do mundo, grande detentor de ativos internacionais e peça central no mercado de títulos. Se investidores japoneses forem forçados a repatriar capital, ou se o Banco do Japão perder o controle da curva de juros, os efeitos podem atravessar fronteiras rapidamente.

O mundo passou anos preocupado com a dívida americana, a desaceleração chinesa e os conflitos geopolíticos. Talvez tenha subestimado o risco japonês justamente porque ele parece antigo demais para assustar.

Mas crises financeiras costumam nascer assim: de desequilíbrios conhecidos, tolerados por anos, até o momento em que deixam de ser toleráveis.

O Japão não precisa necessariamente colapsar. Ainda possui enorme riqueza, instituições fortes, capacidade tecnológica e credibilidade acumulada. Mas a margem de erro diminuiu. E, quando uma economia com dívida gigantesca, população envelhecida, inflação emergente e juros longos em alta começa a perder estabilidade, o impacto não fica restrito às suas ilhas.

O Japão pode ser o lembrete de que juros artificialmente baixos resolvem problemas por um tempo, mas também criam dependências. E quando o custo do dinheiro volta a subir, o mundo descobre quem estava nadando sem roupa.

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