Cairo - 06/01/2017

Preocupação e tristeza dos cristãos do Egito no Natal copta

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Egípcios celebram o Natal copta, no Cairo, em 6 de janeiro de 2017





Marie Labib não fez um único bolo para o Natal copta este ano. Ela não consegue se esquecer das imagens do sangrento atentado contra uma igreja no Cairo e vive angustiada toda vez que seus filhos saem de casa.

"Ninguém sente a alegria da festa. Não preparei bolo algum e fiz apenas uma boa faxina", lamenta.

Sentada sob uma imagem de Jesus, em sua casa no confortável bairro de Maadi, Marie não esconde seu medo pelos membros de sua família: "Sou refém do medo toda vez que um dos meus três filhos sai de casa".

Essa mãe de família de 47 anos conta que pediu às suas duas filhas que escondam a cruz que levam pendurada no pescoço para "não se expor a possíveis agressões".

Em 11 de dezembro, um atentado suicida reivindicado pelo grupo Estado Islâmico (EI) atingiu, em plena celebração, a igreja copta de São Pedro e São Paulo, contígua à catedral copta de São Marcos, no Cairo, deixando 28 mortos.

O ataque provocou uma profunda preocupação na minoria copta, que continua sendo a maior comunidade cristã do Oriente. Os coptas constituem 10% dos 92 milhões de egípcios.

Seus medos se acentuaram com o assassinato, na segunda-feira (2), de um vendedor de vinhos copta de Alexandria (norte), que foi degolado por um homem, aparentemente, por motivos religiosos.

"Não me sinto segura. Tenho meio que uma sensação de que alguém pode me matar pensando que sua ação o aproximaria de Deus", admite a bancária Marina Naji, de 25 anos, uma das filhas de Marie Labib.

"Mas luto contra o medo e não vou esconder a cruz que levo, porque faz parte de mim", acrescenta, desafiadora.

Atentados em série

Os coptas foram alvo de vários ataques nesses últimos anos, incluindo um na noite de Ano Novo de 2011, no qual 21 pessoas morreram em uma igreja de Alexandria. Dezenas deles foram vítimas de ataques anticristãos.

Em agosto de 2013, simpatizantes do ex-presidente Mohamed Mursi, derrocado pelo Exército, incendiaram várias igrejas e propriedades coptas, após a repressão policial que custou a vida de centenas de manifestantes islamitas no Cairo.

"É completamente normal que nos sintamos preocupados depois dos incidentes [anticoptas] em menos de um mês", constata George, um contador de 37 anos que preferiu não informar seu sobrenome.

Morador do bairro Pirâmides no Cairo, ele disse que preferiu assistir à missa de Ano Novo da semana passada em uma igreja de Alexandria.

Mesmo nessa cidade, as medidas de segurança foram reforçadas, do mesmo modo que aquelas implantadas nesta sexta, nos arredores das igrejas do Cairo, com detectores de metais e barreiras para proibir o estacionamento de veículos nos arredores.

George conta que, na igreja de Alexandria, teve de passar por um detector de metais e que foi revistado para comprovar que não tinha explosivos.

"O clima é ruim este ano", lamenta Marina, rezando para que "nada arruíne o Natal".

Vencer o medo

Na igreja de Santa Maria, no norte do Cairo, os fiéis passam um a um pelo detector de metais. A multidão chegou para rezar algumas horas antes da celebração, à noite, do Natal copta.

"São medidas de precaução destinadas a tranquilizar os fiéis", disse à AFP um dos responsáveis pelo templo.

"Os coptas sentem que têm de superar um desafio do atentado" de dezembro, afirma Said Saadallah, depois de fazer suas orações.

"O número de fiéis aumentou, e o de ofícios religiosos, também", acrescentou.

Adel Ishak, um contador de 30 anos e pai de uma menina de duas semanas, conhecia três das vítimas do atentado de dezembro.

"Toda vez, tenho medo de ser a próxima vítima, mas, no final das contas, acabo vencendo esse sentimento e vou à igreja", reconheceu.

AFP




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