29/02/2016 17h05

Domingo sem bravatas - por Luc Monteiro

Compartilhe


Era para ser um domingo de festa. Era um dos dias mais aguardados dos últimos meses pelos 43 que nos inscrevemos para a primeira etapa do Campeonato Metropolitano de Automobilismo de Cascavel, 29 na categoria Marcas E Pilotos e outros 14 na Turismo 1600. Era para darmos, como sempre damos, importância exagerada a cada curva, a cada erro, a cada ultrapassagem, a um trofeuzinho de quinto ou quarto lugar. Era para contarmos bravatas e celebrarmos mais um animado domingo de corridas.

Nada disso aconteceu. Saímos do autódromo todos preocupados, apreensivos, cabisbaixos e repensando uma série de valores. Um acidente como nunca havia visto nas nossas categorias regionais fez o evento parar para não mais ser retomado. Dois colegas de pista envolvidos e levados à UTI hospitalar. Para maioria dos pilotos, dois amigos; no meu caso, um grande amigo de longa data e um garoto que não conhecia, embora o tenha visto e já tenha narrado ao vivo uma corrida da qual participou.

Aconteceu na primeira bateria de Marcas. A da Turismo 1600 já tinha transcorrido, meu carro esteve na pista com meu parceiro Felipe Carvalho, eu tentava disfarçar alguma tranquilidade para encarar a pista na corrida que viria no meio da tarde. Fui para a nova arquibancada do S do Saul acompanhar a disputa. Fui sozinho, de macacão, mesmo. Lá encontrei algumas turmas de amigos - o que mais encontramos em autódromos são amigos, isso é uma coisa legal. Víamos e gravávamos vídeos amadores do que acontecia na pista. Quatro ou cinco voltas depois, surge uma bandeira amarela no posto de sinalização, justificando a correria de alguns dos amigos de ouvido mais aguçado instantes antes.

O acidente aconteceu na curva que dá acesso à reta dos boxes. Marcos Mocelin, que vi algumas vezes no Box da equipe Ribecar, tentava ultrapassar César Chimin, com quem passei alguns dias na Flórida na semana anterior. A manobra não aconteceu. O único vídeo disponível até então, não sei quem filmou, mostra os dois carros saindo desgovernados para a área de escape e arrebentando violentamente nas barreiras à beira da pista.

A correria até o local foi intensa. Muita gente invadiu a pista, alguns movidos pelo ímpeto de auxiliar no socorro a Marcos e César, outros pelo mero inconveniente de estarem próximos de um episódio trágico. Fui com alguns dos amigos até a mureta que separa os boxes da pista, e dali acompanhamos a atuação de socorristas, comissários e curiosos. Em dado momento, alguém que atuava no atendimento ao Marcos proclamou "código 3!". Um rapaz que estava ao meu lado, conhecedor dos códigos das situações de emergências, levou a mão ao rosto e compartilhou seus conhecimentos conosco. Concluiu que a situação era mesmo grave, porque se o código fosse 4 significaria a morte do piloto.

A partir daí não se passaram mais que dez minutos até que comunicassem a ocorrência do código 4. Era comunicação interna entre um grupo de trabalho, mas eclodiu em questão de poucos segundos por todo o autódromo. Um vazio indigesto nos dominou. Muitos entregaram-se às lágrimas, ao desespero. Ficamos desnorteados, essa é a verdade. Eu observava tudo aquilo andando sem saber para onde, talvez para o box da minha equipe. Foi quando o panorama mudou.

Algumas dezenas de torcedores que acompanhavam tudo do alambrado externo do autódromo deram início a um aplauso que, penso, acabou tendo participação de todos nós. Um socorrista havia bradado o restabelecimento dos sinais vitais de Marcos Mocelin. Apesar dos longos minutos sem atividade cardíaca e respiratória, o piloto voltou à vida. Jamais alguém vai confirmar ou negar, mas ouvi que os próprios socorristas já haviam desistido de tentar trazê-lo de volta e que um deles, talvez por desencargo de consciência, empreendeu uma última tentativa de massagem cardíaca. Foi a diferença entre a vida e a morte.

Os acidentados, cada um numa UTI móvel, foram levados à UTI do hospital Dr. Lima. César, que também desmaiou por conta da violenta batida, sofreu um pequeno edema cerebral, consequência da desaceleração brusca, teve uma costela fraturada e uma perfuração de pouca dimensão no pulmão. Deveria sair ainda hoje da terapia intensiva para o quarto, mas os exames de hoje apontaram a evolução de um pequeno edema pulmonar e a determinação é de que permaneça sob observação pelo menos até o fim da semana. Nada que preocupe em demasia, é o que assegura a equipe médica. O caso de Marcos é bem mais grave. Gravíssimo. Teve edemas bem mais sérios, inchaço do cérebro, traumas torácicos e hemorragias. Não recobrou a consciência em momento algum. Um amigo que acompanha o caso no hospital contou que Camila, irmã de Marcos, esteve com ele na UTI e contou que notou movimentos de suas pálpebras enquanto falava com ele. Os médicos que o atendem determinaram 72 horas de prazo, estimativa para que as condições clínicas permitam os procedimentos cirúrgicos.

Há quem diga que o Marcos tenha sido acometido por um mal súbito durante a corrida. É uma tese que faz pleno sentido, sobretudo por não haver qualquer indício de que tenha tentado frear ou fazer a curva. Só quem viu as imagens onboard do carro do César foi o comissariado de prova; não sei se Marcos tinha câmera instalada em seu carro.

Reunimo-nos, os pilotos participantes da etapa, com a direção de prova tão logo as ambulâncias com Marcos e César deixaram o autódromo. A decisão tomada pela maioria, e seguida por todos, foi de que se suspendessem todas as atividades do evento automobilístico. A corrida em que houve o acidente foi cancelada. Para efeito de campeonato, e só para esse efeito, ela não existiu. As segundas baterias da Turismo 1600 (realizada instantes antes) e de Marcas e Pilotos serão repostas, provavelmente na véspera da próxima etapa. É o que menos importa agora.

Gente ligada às corridas em todos os cantos do Brasil me pergunta a cada pequena porção de minutos sobre a situação dos pilotos. Estou perto dos fatos, afinal, em comparação aos amigos que emanam suas boas energias de todos os lugares pela recuperação dos dois pilotos. Como temos feito nós, ligados diretamente ao automobilismo de Cascavel.

Éramos, repito, 43 os pilotos de automobilismo inscritos na etapa de ontem. 24 carros nas classes A e B da categoria Marcas e Pilotos, cinco deles com duplas de pilotos, outros 10 na Turismo 1600, com quatro duplas e seis inscrições individuais. Fiz questão de examinar as listas, nome por nome. Marcos é o único com quem jamais troquei uma palavra. Fico procurando algum significado para esse tipo de constatação; é coisa que me assusta um pouco, devo admitir, embora sem saber por quê.

Espero ter, ainda, a oportunidade de trocar algumas palavras com o Marcos. Ou de me juntar à sua turma na mesa de truco improvisada sobre uma pilha de pneus de corrida a dois boxes do meu. Agora, sobretudo, a chance de ter conversado com os 43 pilotos da primeira etapa de 2016, a que não acabou, torna-se um evento estatístico dos mais importantes.





13/11/2015 11h39

Melhor de três - por Luc Monteiro

Compartilhe


Assisti do sofá de casa, em dezembro de 2006, à corrida que definiu em Brasília o título da 11ª temporada da Fórmula Truck. Eram três os pilotos que largavam com alguma chance de título, e todos eles viram-se campeões brasileiros com o resultado parcial da corrida em algum momento.

No fim, Renato Martins garantiu o primeiro título de pilotos da Volkswagen mesmo sem alcançar o pódio. Vinicius Ramires, de Mercedes-Benz, foi o vice-campeão. Em terceiro na pontuação ficou o Pedro Muffato, de Scania.

Eu na época trabalhava para o Vinicius e para o Pedro. Numa perdoável influência do trabalho nas impressões pessoais, torci contra o Renato naquela final de nove anos atrás. Se ele ler isso seguramente não vai mais me convidar a rir com a turma de amarelo em seu motorhome nos fins de semana de corrida; menos ruim para ele, ainda sobre a decisão de 2006, que sou um pé-frio irremediável. Bem, chegamos agora a mais uma decisão de título entre três pilotos - o que, como veremos mais adiante, não é recorde da categoria.

Felipe Giaffone fez as vezes de Fênix na etapa cascavelense. Fez pole, fez melhor volta na primeira fase da corrida de 8 de outubro, venceu e viu cair de 39 para 11 pontos sua distância para o líder Leandro Totti, que amargou uma senhora pancada no caminhão de Djalma Fogaça no início da corrida, foi desacreditado por todos que acompanhavam a disputa e, em corrida de recuperação, veio do fim da fila para ser quinto colocado. Com 53 em jogo na etapa de 6 de dezembro em Londrina, volta a respirar no campeonato, o Felipe.

Os dois pilotos da Volkswagen-MAN terão como adversário na disputa pelo título Paulo Salustiano, da ABF/Mercedes-Benz, outro que saiu de Cascavel aliviado por uma corrida de recuperação digna de nota - veio do 17º lugar no grid para o segundo lugar na corrida. O placar, já projetando o descarte obrigatório de um resultado por piloto, aponta 327 pontos para Totti, 317 para Salu e 316 para Giaffone. Fiquem à vontade para lançar seus palpites quanto a quem leva a taça. Já lancei o meu, em caráter confidencial. Será que continuo pé-frio?

Citei 2006, que chegou à etapa decisiva com três candidatos ao título pilotando caminhões de marcas diferentes, cabe um registrinho à temporada de 2004, em que a corrida final, também em Brasília, tinha quatro postulantes à taça, cada um com uma logo diferente costurada no peito do macacão. Beto Monteiro foi campeão com a Ford, Wellington Cirino levantou o vice de Mercedes-Benz, Roberval Andrade fechou o ano em terceiro com Scania e Neno Borlenghi fechou a lista quádrupla com Volkswagen.

Era para terminar aqui, mas estendo com parênteses para confessar que, antes de enviar o texto para postagem, resolvi fazer uma conferência nos dados da Cronomap. Não lembrava, e só vi agora, que outros dois campeonatos chegaram à decisão com quatro pilotos no páreo. Em 2009, Giaffone obteve o segundo de seus três títulos virando o jogo para cima do companheiro de equipe Valmir Benavides, que chegou como líder a Brasília - sempre Brasília. Andrade venceu e ficou em terceiro na pontuação final, com Cirino em quarto.

E além de pé-frio também devo estar perdendo a memória: não é que também me passou batida a decisão de campeonato de 2013 - Em Brasília, é lógico. Beto Monteiro chegou lá em primeiro e confirmou o primeiro título da Iveco na Fórmula Truck. Leandro Totti, em seu primeiro ano de Volkswagen, conseguiu tirar o vice-campeonato de Régis Boessio, terceiro na pontuação final com Mercedes-Benz. Giaffone estava em quarto na tabela e corria por fora como azarão, mas abandonou e fico lá mesmo, em quarto.



27/10/2015 18h28

Lágrimas - por Luc Monteiro

Não vim aqui para contar como foi a corrida.

Compartilhe


Mês passado fiz uma maluquice sem tamanho, que já contei aqui. Participei de uma corrida de carros. Mais que o exercício presumível de enxergar sob outro ponto de vista uma situação tão corriqueira para mim, que é uma corrida de carros, foi algo que me deu um fôlego.

Tenho brincado com os mais próximos que, quando resolvi correr, estava precisando mesmo fazer alguma maluquice, algo como pular de paraquedas, desacatar alguma autoridade, beber um frasco de Pinho Sol ou correr de carro. Essa última alternativa me pareceu mais palpável, até porque não havia Pinho Sol em casa.

Aquela corridinha mexeu comigo, como já citei, quem está por perto percebeu isso. Foi bom. Mas não chegou as pés de uma outra corrida de carros, a de domingo último. E dessa eu nem participei. Falo da Cascavel de Ouro - aliás, não tenho falado de outra coisa nas últimas semanas. Não vim aqui para contar como foi a corrida. Fiz um pouco disso quando redigi o press release para a assessoria de imprensa do evento, e nesse cometi um erro grave logo na primeira sentença.

"A 29ª edição da Cascavel de Ouro revelou o segundo nome de um piloto vencedor a também integrar a galeria de campeões", foi como comecei o texto, engolindo um elemento importante. "A 29ª edição da Cascavel de Ouro revelou o segundo filho de piloto vencedor a também integrar a galeria de campeões", era o que deveria ter escrito. Estava com a cabeça no mundo da lua. Imperdoável.

Poderia eleger várias réguas para medir o sucesso da Cascavel de Ouro. Poderia citar o grid com 38 carros, a lista de inscritos abarrotada de 87 nomes que viajaram de cidades de nove estados brasileiros até Cascavel, ou o regulamento tão simples ou eficaz que ateve a disputa a duplas e trios com seus carros de Marcas 1.6, que abundam em todos os campeonatos regionais do país, ou ainda a transmissão ao vivo pela televisão, algo um tanto excêntrico para uma corrida de quatro horas de duração. Poderia exaltar o fato de Ka, Celta, Palio e Gol terem ocupado as quatro primeiras posições finais da corrida, algo que em momento algum ocorreu quando o Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos teve seu grid formado por Ford, GM, Fiat e Volkswagen em 1983 e 1984 ? meus conhecimentos acerca do tema não vão a tanto, quem observou isso foi o inserindípito fidélico Luiz Alberto Pandini.

Poderia adotar uma série de parâmetros, mas prefiro fiar-me ao mais verdadeiro de todos: as lágrimas. Há coisa mais real nesse mundo que lágrimas? Duvido. No meu modo maluco de ver as coisas, penso ter traduzido os feitos e fatos do último domingo nas lágrimas.

Nas lágrimas do Juraci Massoni, dirigente que comandou, liderou seria o verbo mais correto, um verdadeiro batalhão para que a corrida, ou o evento, tomasse a proporção que tomou. Jura deixou-se flagrar às lágrimas enquanto acompanhava a saída à pista de vários exemplares antigos, enquanto os 38 carros que formariam aquele grid permaneciam postados, imponentes, à frente dos boxes.

Nas lágrimas do Valdir Favarin, que pôde enfim acelerar seu protótipo bimotor no autódromo, durante o mesmo desfile em que, a bordo de um carro de corridas, foi exceção à regra do belíssimo acervo de exemplares de todas as épocas e espécies. De cara para o vento, sem capacete e de macacão, curtindo aquele momento em um templo onde amealhou tantas emoções boas e ruins.

Nas lágrimas do Márcio Sírtoli, tio de piloto, tão fora de si diante do terceiro lugar do sobrinho na corrida. Ninguém dava nada para esses meninos, a resposta está aí, era o que o Márcio bradava, sem disfarçar o choro compulsivo, emocionado com o feito heróico de um trio que, segundo seus urros, era desacreditado.

Nas lágrimas do Cleyton Cezarotto, emocionado que desceu do carro depois de quatro horas de corrida, depois de ter largado lá de trás com um carro que terminou de ser montado minutos antes dos treinos livres da etapa e em dupla com um parceiro, Marcelo Campagnolo, que sequer conhecia até serem apresentados via celular por gentes ligadas à promoção da corrida.

Nas lágrimas do Osires Júnior, locutor de arena da corrida ? e essas não presenciei, mas me foram relatadas pelo próprio ?, quando a voz embargou diante de determinada mensagem de agradecimento e congratulação encaminhada via rádio a toda a equipe de trabalho.

Nas lágrimas do Michel Giusti, da Sandra Zama, do Tiago Souza, na de tanta gente que em algum momento rendeu-se a uma energia que eu nunca tinha presenciado ou vivido naquele sítio onde a história de uma corrida de nome forte como a Cascavel de Ouro




16/10/2015 15h18

O tempo das coisas - por Luc Monteiro

É duro admitir, mas o tempo de Guaporé passou.

Compartilhe


O passar do tempo nos traz problemas naturalmente. Vinte anos atrás, para dar um exemplo bobo, nenhum de nós tinha preocupação frenética de responder torpedos e mensagens de aplicativos, checar e-mails a cada porção de minutos, ser acordado antes da hora com o celular tocando. Salvo nas preconizações dos desenhos animados como "Homem-Pássaro" e "Superamigos" e seriados como "Agente 86", ninguém fazia a menor ideia de que um dia haveria teleconferência, celular, um mundo online como temos hoje. E a vida de até vinte anos atrás fluía e todos trabalhavam e tinham tempo para a família e os amigos e o mundo girava. Nalgum momento, perdemos a mão da coisa e deu nisso.

Assim é com tudo, e o automobilismo não é exceção. O Homem-Pássaro, Batman e Stanley Maxwell Smart me vieram à cabeça na manhã de 3 de outubro, quando cheguei ao autódromo de Guaporé e fui quase abduzido pelo Luiz Silvério em sua motoneta, esbaforido que estava diante do acidente que David Muffato sofrera no último treino livre da oitava etapa da Fórmula Truck.

De acelerador travado na sequência sinuosa que sucede a curva do Radiador, passou reto na tomada da curva da vitória, rompeu o frágil guard-rail e foi parar dez metros ladeira abaixo, em meio à mata ali existente. Em meio aos felinos dali, também, como nos mostraram as imagens do drone do Manoel Teixeira.

O autódromo de Guaporé é um dos mais bonitos do Brasil. "Um dos". Até quatro anos atrás eu o apontava como mais bonito do Brasil, mas aí nasceu o paradisíaco Velo Citta e, mesmo sob referenciais distintos, não há como negar que a pista de Mogi Guaçu põe todas as outras no bolso em termos de cenário, paisagem, essas coisas que fazem bem à alma durante um fim de semana de treinos ou corridas. Mas é, o circuito guaporense, um dos mais bonitos do Brasil. O segundo mais bonito. E tem história. Por ali já correu tudo e já correram todos. Fórmula 2, Fórmula Ford, Fórmula 3, Stock Car, Fórmula Chevrolet, Copa Fiat, Brasileiro de Marcas e Pilotos, Pick-up Racing, até o finado Brasileiro de GT.

No automobilismo, contudo, beleza não põe à mesa. Passou o tempo de Guaporé, e nesse caso falo do ambiente que nos acolhe todos os anos no evento da Fórmula Truck. Com seus mais de 40 anos muitíssimo bem vividos, o autódromo está defasado, sobretudo no que diz respeito às condições de segurança.

Um alerta de respeito quanto a isso nos foi dado há três anos, quando Diumar Bueno despencou ladeira abaixo depois de ficar sem freios e arrebentar o muro que margeia a primeira curva da pista como se fosse feito de guardanapo. O caso de Bueno, todos lembram, foi bem mais drástico: sofreu mais de 50 fraturas pelo corpo e vê-lo caminhando menos de um ano depois trouxe a todos uma inegável sensação de vitória.

A plástica do acidente de Muffato na última curva da pista foi muito parecida. A consequência, felizmente, ateve-se aos danos materiais - o piloto saiu do caminhão por conta própria e acompanhou o meticuloso trabalho de resgate de seu Scania tranquilo, por vezes sorridente. Foi, não nos iludamos, um alerta: Guaporé, o autódromo, precisa ser repensado para ser mantido no calendário nacional. Eu mesmo venho conversando com dirigentes e promotores aqui e ali há algum tempo sobre a possível realização de etapas lá, visto que a Truck é a única categoria a contemplar a cidade em seu calendário. Sou obrigado a dar a mão à palmatória e conhecer que, como está, Guaporé está fadado ao fim.

Reforma é assunto dos mais delicados. Resolveria a infraestrutura obsoleta. Quanto às áreas de escape, ruins e parcas, a saída seria redesenhar a pista. O terreno, por sua topografia, não comporta ampliar áreas de escape em torno do traçado atual. Mexer nele seria um pecado, mas qualquer pretensão de trazer Guaporé aos tempos de hoje passa por um desenho de pista diferente. E chicanes. Na coletiva da etapa questionei minha xará Luciane Faccio, secretária de Turismo da cidade, sobre melhorias. Ela foi ao ponto: a área não é pública. Mas há ações, ainda tímidas, em andamento para que se levantem verbas suficientes a algo que devolva Guaporé à condição de ocupar no cenário nacional a posição de destaque que merece.

Porque, como está, não dá mais. É duro admitir, mas o tempo de Guaporé passou.





21/09/2015 10h49

O drama de um bom Piquet - por Luc Monteiro

Cabe esclarecer: o texto a seguir foi publicado originalmente pelo Motorsport.com

Compartilhe


Foi difícil manter a compostura ao microfone quando aquele carro decolou e assumiu uma sequência quase interminável de capotagens. Era a primeira volta da corrida, a segunda corrida do Porsche GT3 Cup na sexta etapa em Goiânia, e era Pedro Piquet que eu citava na narração da corrida para a Rede Bandeirantes, em transmissão repicada ao vivo pelo portal Terra, quando o carro número 6 do garoto de 17 anos percorreu alguns palmos de pista apoiado só nas rodas esquerdas para, em seguida, sair rodopiando pelos ares. Temi pelo pior.

Pedro Estácio Leão Piquet Souto Mayor protagonizou neste 20 de setembro o acidente mais impressionante dos dez anos de história do campeonato. Antecipei à audiência a interrupção da corrida antes mesmo da bandeira vermelha ser apresentada aos pilotos. A operação de resgate foi meticulosa e, sem eufemismos, levou tempo. Uma eternidade para todos nós que acompanhávamos tudo aquilo agoniados por um monitor de TV, uma tela de computador ou um display de telefone celular. Dino Altmann e sua equipe médica sabiam o que faziam, claro.

Só soubemos um pouco sobre os procedimentos do atendimento depois que o doutor Dino voltou do HUGO, o Hospital de Urgências de Goiânia, para onde o piloto foi levado tão logo o removeram do habitáculo - que, frise-se, permaneceu intacto apesar da violência da série de capotagens. À constatação de que Pedro estava são e consciente, queixando-se da dor aguda no braço esquerdo, os médicos empreenderam os primeiros exames ainda com o piloto dentro do carro. A suspeita de fratura no braço que tanto doía atormentava o time do doutor Dino.

A opção dos médicos foi de imobilizar o braço do piloto sem tirarem-lhe o macacão. Tomada a providência voltada ao braço, imobilizaram-no numa maca, procedimento do mais absoluto praxe, e o puseram na ambulância. Internação feita, o macacão foi enfim tirado e todos os exames cabíveis foram feitos, tomografias e radiografias. Fraturas estavam descartadas de uma vez por todas. Alta, só amanhã - a casa decretou a Pedro uma noite de estadia hospitalar a título de observação. Até o início da noite Piquet pai não havia arredado pé do lado do filho.

Passaram-se exatos 23 segundos entre o diretor de provas Sérgio Berti autorizar a largada e os carros terem seu primeiro toque lateral. Baptista havia largado em sétimo, uma posição à frente de Piquet - foram segundo colocado e vencedor da corrida de sábado, que abriu a etapa, e partir da inversão absoluta das oito primeiras posições ficaram com a quarta fila do grid. Já estavam em sexto e sétimo quando Piquet tangenciou para a terceira curva, ciente de que tinha a linha externa em um momento de posições ainda não acomodadas na pista.

Esse primeiro toque fez o carro de Piquet desgarrar da linha de traçado pela qual havia optado em sua pretensa conduta de recuperação para a primeira volta. Um segundo depois, e não mais que isso, nota-se claramente o carro 27 de Baptista em brusca mudança de trajetória, apontando para fora e acertando o carro 6 do caçula do grid. Esse segundo toque ocorreu no exato momento em que, por ter desgarrado de seu traçado, Piquet tinha o carro um tanto desarmado na pista. Não tinha as rodas na grama, como disseram ou escreveram aqui e ali.

Todo mundo falou e escreveu bastante sobre Piquet capotando nove vezes na reta oposta do circuito goiano. Todo mundo apresentou suas versões pessoais, pretensamente definitivas e elucidativas. O que ninguém considerou, porque isso não se nota claramente é que, no toque que originou todo o episódio, Baptista teve o pneu dianteiro esquerdo furado - foi o que fez seu carro apontar estranhamente para a esquerda e catapultar Piquet para a sequência talvez mundialmente recordista de seis segundos e meio para nove capotagens no ar e no solo.

Foi, repito, o acidente de imagem mais espetacular que narrei. Usei essa expressão durante a narração para o Terra, aliás, e soube horas depois que, nos boxes, Nelson Piquet reagiu a esse meu termo com um sonoro palavrão. Pelo que reza a lenda, não deixa de ser nota digna ao currículo de um narrador ou jornalista ser xingado por Nelson. Há que se relevar a violenta carga de emoções a que o ex-piloto se submeteu vendo pela TV seu rebento voando pelos ares. Sei que não foi pessoal, Piquet e eu mal trocamos meia dúzia de palavras até hoje.

Nelson voltou a apresentar, em pleno momento de maior tensão a que a carreira de Pedrinho o submeteu, postura digna de um campeão. Manteve-se tão sereno quanto possível, sem tentar disfarçar o semblante tenso diante dos LEDs que transmitiam a corrida para os boxes. Até que decidiu caminhar, correr, até o local do acidente, jornada em que foi acompanhada pelo amigo Dibo. Superou a limitação decorrente do acidente de 23 anos atrás em Indianápolis e apertou o passo em boa parte do trajeto de 600 ou 700 metros. Nos últimos, ensaiou uma corrida.

Foi Dibo quem me confirmou, minutos depois, que eu estava certo na impressão manifestada a quem assistia à corrida. Depois de chegar ao carro, examinou a situação num rápido golpe de vista, afastou-se e respirou aliviado, sensação denotada por sua expressão corporal , captada pelas câmeras da geradora de imagens Master/CATVE. Nelson sabe muitíssimo bem como esse negócio funciona. Conhece mais desse riscado que qualquer um de nós. Só reassumiu contato com a situação depois que os médicos tiraram seu filho do carro e o puseram na ambulância.

Pedro viu o pai e perguntou o que e por que havia acontecido. "Fica tranquilo, filho, está tudo sob controle", respondeu, enquanto tratava de embarcar naquela viatura médica que não devia saber, até então, para onde iria. Horas depois de rodopiar pelos ares, o garoto postou nas redes sociais da internet uma foto de seu rosto roxo e inchado. Sorria, na foto. "Tudo certo, pessoal, pequeno susto, estou ótimo aqui. Obrigado por todo o apoio", legendou. Os vídeos com as imagens do acidente são compartilhados em larga escala em todos os canais.

Convivo com Pedro de forma mais frequente desde o começo do ano passado, quando estreou na Fórmula 3. Exceção a cumprimentos breves e quase protocolares, foi na última sexta-feira que de fato conversei com ele pela primeira vez. Sem ter disputado as duas etapas anteriores, já não tinha, em termos práticos, chance de título no Porsche GT3 Cup. "Seu campeonato já era, você está aqui atrás de quê?", perguntei-lhe. "Disputa, ué. Eu quero disputa", falou, rindo. Ontem, venceu. Hoje, levou o maior susto da vida. Como bom Piquet que é, tirou de letra.










25/08/2015 07h30

A Cauda da Onça - por Luc Monteiro

Compartilhe


Um complexo com quatro milhões de metros quadrados vai acolher, a partir de 2016, o novo endereço do automobilismo brasileiro. Falo do Circuito dos Cristais, em Curvelo, cidade mineira distante 160 km da capital Belo Horizonte. Uma grande tacada da iniciativa privada, neste caso da TecRacing, empresa capitaneada por Alfredo Santos e Marco Túlio Santos. O empreendimento levado adiante com recursos próprios e, claro, também com o captado junto aos investidores e compradores das cotas do Clube Casa de Pista. Na parte que mais interessa ao público das corridas em geral, o autódromo deverá ser inaugurado em março de 2016.

O autódromo está sendo construído sob moldes já consagrados no primeiro mundo - o Ascari, na Espanha, e o Monticello, nos EUA, são dois exemplos bem concorridos. A cota adquirida por um associado lhe dá direito a uma série de vantagens, nelas incluídos o acesso à pista em um número determinado de vezes por ano, já que a previsão é de realização de sessenta edições anuais de Track Day, e 500 metros quadrados de área no condomínio que vai integrar o complexo. As fases seguintes do empreendimento compreenderão estrutura hoteleira, galpões, pistas off-road e de mountain bike, além da proximidade com loteamento comercial.

O asfaltamento da pista vai de vento em popa. A aplicação do asfalto segue o sentido anti-horário do traçado de 4.415 metros e já alcançou a curva 4 - a foto mostra uma faixa mais escura já na décima das dezessete curvas, que representa a imprimação, uma fase pré-asfáltica do trabalho, por assim dizer. Nem todas as curvas ganharam nomes, mas sei que já há por lá a Ferradura, o Anzol, a Cauda da Onça... Nunca me imaginei narrando uma disputa por posição em que um piloto tenta chegar antes de seu oponente à Cauda da Onça. Farei isso em Curvelo durante a próxima temporada - basta-me continuar trabalhando como narrador de corridas.

O plano inicial prevê a inauguração daqui a sete meses com dez boxes. Pouco, pelos padrões que conhecemos. Ainda assim, há contatos para que Stock Car e Fórmula Truck tenham etapas em Curvelo já no próximo ano, o que implicaria a necessidade de construírem mais boxes ? será o menor dos problemas. O trabalho no Circuito dos Cristais segue dentro dos prazos pré-estabelecidos, o que é uma conquista e tanto, tudo dentro dos padrões da FIA, a Federação Internacional de Automobilismo. Há o compromisso, para a fase imediatamente seguinte, de adequação de tudo conforme reza a FIM, que gere o motociclismo internacional.

É um alento ver o empenho com que os curvelanos trabalham, seja no canteiro de obras ou nos rincões distantes dali onde exista algum interesse no resultado final. Inevitável o clichê de que a realidade do Circuito dos Cristais vai na contramão da onda infeliz de sucateamento e desativação de tantos autódromos brasileiros. Há esperança, contudo. Goiânia deu grande passo ao reestruturar seu autódromo. Cascavel tentou coisa parecida, o resultado foi suficiente para voltar ao cenário. Interlagos deve renascer logo, também. Há mais casos, e acho que é nisso que Curvelo arrebatou minha simpatia: encarou a contramão da tendência de ora.




05/08/2015 14h03

Há três anos - por Luc Monteiro

Compartilhe


O Facebook, na falta de coisa melhor a fazer, passou nos últimos tempos a resgatar momentos de eras passadas pela data. Meu perfil lá não faz isso, suponho que tenha de habilitar algo que ainda não procurei, sou sempre o último a surfar nessas ondas virtuais.

Fato é que essa ferramenta de resgatar postagens de anos passados me fez ver, hoje, uma foto que o Duda Bairros, fotógrafo da Vicar, postou em 5 de agosto de 2012. Foi o Carsten Horst quem fotografou o gaúcho fotografando, de um helicóptero em voo, a etapa de Jacarepaguá da Copa Petrobras de Marcas. Era o segundo ano da categoria, que eu acompanhava bem pouco. Foi minha estreia na Copa Petrobras e no time da Vicar.

Naquele ano as etapas da Copa Petrobras eram transmitidas ao vivo pela Rede TV!. Celso Miranda, narrador de então, estava fora de combate por uma causa nobre: estava em Londres na cola dos Jogos Olímpicos. A Vanda Camacho era a diretora do evento e, imagino que sob indicação do Jorjão Guirado, me telefonou cinco dias antes da etapa consultando minha disponibilidade para substituir o Celso em Jacarepaguá.

Oportunidade das mais interessantes, eu diria que irrecusável, mas pedi à Vanda algumas horas de prazo para dar uma resposta. Nossa agência jornalística, em 2012, era responsável pela assessoria de imprensa da Fórmula Truck e a etapa do Marcas o Rio coincidiria com a prova da Truck em Cascavel. Tirar o time de campo na Truck exatamente na etapa da minha cidade traria algumas implicações complicadas, e o primeiro passo seria convencer o Clóvis Grelak, meu sócio, de que não poderia estar por aqui.

Passei o dia rondando a sala do Clóvis. Naquela terça estendemos o expediente até o início da noite. Convidei-o, por volta das sete, a um café no shopping ao lado - um ritual que cumpríamos esporadicamente. Com o café já desativado, demos a volta no quarteirão à caça de um boteco. Paramos no restaurante Tom?s e, em vez do café combinado, tomamos uma cerveja. Entrei no assunto de uma vez, já prevendo uma reação de repulsa à ideia, e caí do cavalo: Clóvis mandou que eu fosse tratar da vida no Rio que a agência daria conta do recado por aqui sem mim. Como deu, e não seria diferente.

Retornei a ligação da Vanda de imediato. Já tínhamos definida a questão de números e eu iria, enfim, integrar o staff da Vicar, ainda que por uma única corrida. O chefão Carlos Col seria, foi, o comentarista convidado da transmissão. Lembro que na quarta-feira comentei a questão com o Thiago Camilo, que corria na Copa Petrobras - as corridas não dividiam programação com a Stock Car ? e estava na disputa pelo título. "Preciso me dar bem no Rio", ele me falou. Respondi, com ar quase mediúnico, que ele não ia se dar bem na primeira corrida, mas que venceria a segunda.

Chegou o domingo, 5 de agosto. Enquanto a Truck literalmente pegava fogo em Cascavel (os caminhões de Adalberto Jardim e João Maistro tiveram princípios de incêndio na corrida), eu fazia no Rio minha primeira transmissão da Copa Petrobras de Marcas. Denis Navarro, com o Toyota Corolla do time do Eduardo Bassani, ganhou a primeira corrida. Thiago Camilo, que abandonou a primeira, largou em 15º na segunda com o Chevrolet Astra da equipe do Carlos Alves e venceu, com pista molhada. "Que boca você tem, meu!", ele me disse, depois da corrida. "Lembrei da sua previsão assim que recebi a bandeirada". Fiz aquela cara de quem finge saber o que estava falando e disse que ele me devia uma pizza a mais pelo palpite certeiro - já havia perdido uma ou duas em apostas de futebol. Ele sorriu, me deu um tapa no ombro e concordou.

Thiago saiu da categoria, eu entrei em definitivo um ano depois. Ele jamais me convidou para pizza alguma. Mas tem crédito na casa e mais três anos de prazo para isso.





11/06/2015 13h46

Pesos e medidas - por Luc Monteiro

Compartilhe


Todos que acompanham corridas lembram do Campeonato Brasileiro de Gran Turismo. Lembrei agora, também, de um causo que remete a 2012, o penúltimo ano da competição. Um dos assuntos recorrentes nos bastidores era a equalização técnica entre os diferentes modelos de carrões que compunham o grid. A cada vez que o assunto me envolvia meu comentário era o mesmo: qualquer um que queira se aprimorar numa equalização dessa natureza deve observar a Fórmula Truck. Belo dia, um dos chefes se encheu. "Você fala tanto da Truck, por que não vai trabalhar lá?". Respondi que já trabalhava. Rimos e fomos tratar da vida, eu na cabine de narração, ele na área vip com patrocinadores do evento.

Comentei esse episódio dias atrás à mesa do bar, o que é raro - não eu ir ao bar, mas falar sobre corridas. Odeio falar sobre corridas fora do ambiente de trabalho. E sim, a equalização dos caminhões de corrida é algo que só não fascina ainda mais porque meu conhecimento técnico é qualquer coisa em torno de zero. Seis marcas, com pesos totais que variam (bem) mais de uma tonelada, com motores de nove, doze, treze litros, todas elas com a mesma capacidade de rendimento nas pistas. Todas no campeonato. Aí você, que me leu até aqui, interpela e diz: e por que só os Volkswagen-MAN estão ganhando corridas?

Ora, aí toma-se por base outra equação irrefutável do automobilismo e da vida em geral: investimento e trabalho. São dois fatores que, se isolados ou mal canalizados, podem render frutos indigestos, mas quando bem casados resultam no que se observa em 2015: três corridas e três vitórias dos Volks-MAN da RM Competições. Renato Martins conduziu sua equipe a um casamento perfeito, se é que isso existe, com a Engenharia da fábrica, que tem sede na carioca Resende. O envolvimento direto da marca com a equipe, somado à competência da RM e ao suporte financeiro que a equipe viabilizou em contratos de patrocínio, tem resultado em vitórias e títulos - cinco títulos brasileiros nos últimos nove campeonatos, diga-se.

Costumo dizer que no automobilismo o décimo de segundo tem preço e que esse preço tem tabela. É um feijão-com-arroz a que Renato e seus blue caps da Fórmula Truck aplicaram um tempero especial. Nesta temporada de 2015, por exemplo, a Mercedes-Benz intensificou seu envolvimento com a equipe ABF, a ponto dos caminhões da equipe da marca serem a sombra mais próxima dos Volks-MAN de Leandro Totti e Felipe Giaffone - em que pese o terceiro lugar na pontuação do campeonato ser do Djalma Fogaça, que cumpre um campeonato valente com seu Ford, também à custa de planejamento e da canalização eficiente dos recursos que viabilizou. Não basta investir, afinal. É necessário investir da forma correta.

É exagero arriscar uma aposta em dez vitórias da esquadra de Martins na temporada? Talvez não, dado o momento consolidado do time - a Iveco tomou linha de trabalho parecida pouco tempo atrás e o resultado foi o título de 2013. A Mercedes-Benz vai ganhar corridas logo? É bem provável. E Fogaça, com o Ford? Esse sabe bem o tamanho do passo que consegue dar e lida com a regularidade para se manter nas cabeças. Há fãs que se encantam com vencedores diferentes a cada mês, para esses o domínio temporário de uma marca pode soar enfadonho, mas há que se observar o trabalho das concorrentes para alcançar a que está na frente. Creia, essa temporada de caça é mais viável na Truck do que, por exemplo, na Fórmula 1.

Essa questão de alternar vencedores já bateu cartão na Fórmula Truck. Os eventos estatísticos desta natureza são muitos, e dois deles ocorreram em 2013, quando as seis primeiras etapas tiveram vencedores diferentes - Wellington Cirino, Paulo Salustiano, Régis Boessio, Geraldo Piquet, Beto Monteiro e Felipe Giaffone ganharam as seis primeiras corridas. A décima e última prova daquele ano marcou a última vitória de Valmir Benavides na categoria e selou o campeonato como o que teve o maior número de pilotos ganhando corridas, outro marco que o #DataLuc observa. Vocês já fizeram a conta. Sete vencedores em dez corridas. Monteiro, Boessio e Giaffone foram os que repetiram primeiros lugares naquele ano.

Houve dois campeonatos que alternaram vencedores nas cinco primeiras corridas. O de 2006, com Leandro Totti, Pedro Muffato, Roberval Andrade, Renato Martins e Vinicius Ramires revezando as vitórias, e o de 2008, em que os primeiros ganhadores foram Monteiro, Andrade, Giaffone, Piquet e Cirino. Esse de 2008 se aproximou do de 2013 em número de vencedores, já que Luiz Zappelini também ganhou uma corrida, a oitava do ano. Essa marca de seis vencedores foi atingida também em 2010, sob outra circunstância curiosa: Andrade, que foi o campeão, ganhou cinco vezes. Nas outras cinco, abandonou, e nessas o degrau mais alto do pódio foi partilhado por Giaffone, Benavides, Cirino, Piquet e Monteiro.




20/05/2015 10h44

A fila indiana - por Luc Monteiro

Compartilhe


Meu sócio costuma dizer que há a lei e, num grau de elegância mais elevado, o espírito da lei. Eu, mais desleixado, traduzo essa percepção de outra forma. Costumo dizer que para tudo existem duas maneiras, uma que é certa e outra que funciona. Filosofia barata à parte, cada casa tem sua regra, e a volta da Fórmula Truck ao Velopark traz-me à cabeça uma que suscita muitos posts de internet por parte de quem consome o automobilismo de alguma forma: as largadas e relargadas.

Faz menos de um mês que estive pela última vez no Velopark, de onde narrei as corridas da Copa Petrobras de Marcas para a Band. Foi um fim de semana com sete corridas de quatro campeonatos. Cinco delas, por força dos regulamentos particulares, tiveram largada lançada com os carros formando uma única fila indiana - a exceção ficou por conta da sempre atrativa Fórmula 3, em que a largada acontece com os carros parados no grid, e por esse motivo mantêm-se as duas filas.

Na ocasião conversei a respeito com o diretor de provas Mirnei Piroca, tão gaúcho quanto o Velopark. A justificativa do Mirnei para o procedimento, óbvia, apontava para a segurança. A primeira curva da pista exige uma frenagem forte e o traçado acaba afunilando. Sobra carro, falta espaço, sempre alguém toma um chega-mais. Para evitar esbarrões, a fila indiana virou regra. Largada lançada com fila indiana, sabemos, não é um formato campeão de popularidade entre os fãs do automobilismo.

No caso da Fórmula Truck, que terá uma corrida no Velopark pela terceira vez, o panorama tende a ser bem mais convidativo aos que preferem pelotões espalhados pela reta de largada e disputa por posições até o último palmo antes da primeira curva de corrida. É o que me faz crer o Carlos Roberto Montagner, que exerce na Truck a mesma função do Mirnei no Marcas. No que depender do Monty, os caminhões vão descer a reta em duas filas paralelas para o início da corrida de 14 de junho.

Não depende só do diretor de provas, é claro. No briefing da antevéspera da corrida pode haver um consenso entre pilotos e comissários desportivos, por exemplo, para que se adote a fila indiana. Não se pode descartar a hipótese desse consenso em torno da fila indiana emergir do colegiado de comissários desportivos, que na etapa veloparkiana Truck deve incluir meu conterrâneo paranaense Gilberto Elger e os gaúchos Carlos Strey e o próprio Mirnei Piroca. Palpite meu: vamos de duas filas.

O Velopark tem características bastante singulares. Com seus 2.278 metros, é o traçado mais curto do calendário, sem depender para isso da aparente extinção do Autódromo de Brasília, onde a Truck utilizava o anel externo de 2.919 metros. Foi por conta da ziquezira em Brasília, aliás, que Neusa Navarro e seu esquadrão remanejaram essa corrida de junho para Nova Santa Rita. O desenho do autódromo valoriza duas retas não tão extensas, unidas por sequências de curva de média e baixa velocidade.

É uma pista onde os caminhões passam muito perto dos torcedores. Talvez seja o lugar onde esse contato seja mais próximo. Passam não só perto, como a todo momento, a ponto de a última corrida lá, pouco mais de três anos atrás, ter registrado 45 voltas válidas - o total de voltas no resultado final de uma corrida da Fórmula Truck, caso vocês não saibam, descarta as que são percorridas sob bandeira amarela com o Pace Truck na pista, seja na intervenção programada, seja por ocorrências de corrida.

A volta mais rápida da história da Truck no Velopark foi obra de Roberval Andrade, mais rápido no treino classificatório da abertura do campeonato de 2012 com o tempo de 1min09s342, a 118,265 km/h. Beto Monteiro, que seria vencedor da prova, conquistou a pole instantes depois sendo apenas um milésimo de segundo mais lento que isso no Top Qualifying. Monteiro, aliás, tem uma invencibilidade a defender: ele também ganhou a corrida que levou a categoria ao Velopark pela primeira vez, na oitava etapa de 2010.




27/04/2015 13h28

Fórmula TrucK: Vinte momentos - por Luc Monteiro

Compartilhe


A Fórmula Truck chega à vigésima temporada e vocês não se iludam: vamos, sim, abusar do número 20 ao longo do ano. Os exercícios das duas dezenas começam a pipocar em profusão e, acompanhando a onda, eu mesmo proponho um, aqui: elencar os 20 momentos que mais chamaram atenção desde que essa história começou. Costumo me ater a detalhes que seguramente vão desviar a minha lista da pretensão de relacionar os principais momentos - repito, são os que mais chamaram a minha atenção, ou que por algum motivo mereceram que deles eu lembrasse agora. E seguindo as informais recomendações de um amigo que gosta de relacionar suas citações, seus "causos" e seus relatos citando local e data, é esse o referencial que indico em cada ponto enumerado. Vou respeitar, também, a ordem cronológica dos fatos. É o meu "top-twenty", por assim dizer:

*** O choro convulsivo e descontrolado de Roberto Cirino, diretor de Operações da Fórmula Truck, nos boxes de Curitiba/2001, acompanhando por um televisor a atuação que levou seu filho Wellington à primeira de suas 24 vitórias na Fórmula Truck. Outras três vitórias viriam naquele ano, a última delas também na pista de Curitiba, no encerramento da temporada, dando ao piloto o primeiro de seus quatro títulos;

*** O ato heroico de Mad Macarrão, ou Eduardo Landim Fráguas, em Interlagos/2003. Com o caminhão pegando fogo por conta de um problema nos freios - as labaredas já davam o ar da graça numa parada de box poucas voltas antes -, o piloto tirou o capacete e ficou pendurado na porta de seu Volvo reta dos boxes acima, com uma mão na porta e outra no volante, buscando desesperado um lugar onde o caminhão pudesse arder em chamas sem oferecer risco ao público. Encontrou tal porto seguro no S do Senna. Já ao fim da reta, apontou o caminhão para a mureta de proteção de pneus paralela à descida entre as duas tomadas e saltou, rolando pelo asfalto enquanto os cabelos coloridos expeliam a fumaça do fogo que já ameaçava o próprio piloto - o episódio de 12 anos atrás foi relembrado no site da Truck. Um grande personagem, o Macarrão;



*** O décimo aniversário de morte de Ayrton Senna já passava de duas semanas, mas tudo que se escreveu e falou a respeito mantinha o assunto bastante vivo naquele 16 de maio, dia da etapa de Interlagos/2004. Foi quando Ronaldo Gonçalves, então locutor de arena da Truck, pediu silêncio aos dezenas de milhares de presentes e deu à equipe Som da Ilha o sinal combinado para que o sistema de som do autódromo transmitisse a gravação daquela volta que Senna teria narrado para a Rede Globo de dentro de seu carro. Com áudio do motor Renault berrando e tudo mais. Quando a gravação chegou ao momento da Williams passando pela reta, as arquibancadas explodiram em vibração. Para vocês terem uma ideia, os pelinhos do meu braço arrepiaram agora, relembrando o episódio para relatá-lo aqui quase onze anos depois. Incluo nessa cota aqui outra do Ronaldo, de que lembrei agora: Cascavel/2002, pouco além das dez da manhã do domingo, ele pede silêncio à torcida (é sempre arriscado), ajoelha-se na grama diante de uma das arquibancadas e, depois de uma bela mensagem que havia ensaiado, conclama toda aquela multidão a rezar um Pai Nosso. "Se ferrou", eu temi na sala de imprensa - o verbo que conjuguei não foi "ferrar", mas não compromete o sentido. De chapéu no peito, o rapaz conseguiu pôr o autódromo inteiro, que vivia clima de festa típico de Cascavel, a orar em coro. Caí do cavalo. E rezei junto;

*** Lembro dia, mês e ano em que virei fã declarado das corridas de caminhão: 4 de junho de 2004. Por um motivo bobo, como são bobas maioria das coisas que me envolvem. Era sexta-feira de treinos livres e, sem nada de tão urgente a fazer, caminhei até o fim da reta dos boxes para ver os caminhões na pista - ou para espairecer, ou ambos. Da beira da pista, comecei a observar a velocidade em que as rodas dos caminhões giravam. Aquilo me impressionou. Embora já houvesse estado em eventos da categoria dezenas de vezes, aquela foi a primeira noção real que tive da velocidade atingida. "Isso aqui é fora do comum", exclamei para mim mesmo, impressionado. Não havia mais como não achar aquele negócio algo fora do comum;

*** Ainda Goiânia/2004, a corridaça de recuperação feita pelo Roberval Andrade. Ele largava em último, consequência de um sábado de cão, e estava otimista. Pedro Pimenta, seu então estrategista, revelava, momentos antes da corrida, o plano da equipe de, com tudo dando absolutamente certo, o piloto estar no grupo dos cinco ou seis primeiros na 12ª volta, quando havia a intervenção programada do Pace Truck - hoje essa intervenção acontece a um terço de corrida, ou cerca de vinte minutos (olha o 20 aí de novo). Na quinta volta, Roberval era o líder, posição que manteve a duras penas, dada a pressão que recebia de adversários de respeito como Renato Martins e Beto Monteiro, até faltarem duas curvas para o fim da corrida. A quebra do paralama traseiro direito de seu caminhão gerou um atrito que o fez rodar. Monteiro ganhou e, de volta à pista, Roberval terminou em quinto. Subiu ao pódio com cara de poucos amigos;

*** Os pulinhos frenéticos da Débora Rodrigues, que extravasou no teto da cabine de seu Titan Tractor depois de Goiânia/2005, onde alcançou o pódio como quarta colocada. Nem era o primeiro pódio da moça, que um ano antes já havia conquistado o mesmo resultado em Londrina, só que em Londrina ela não subiu ao pódio, seu quarto lugar foi confirmado bem depois, com a desclassificação de dois pilotos que haviam terminado à sua frente. Outros pódios viriam na carreira de Débora, com os terceiros lugares em Fortaleza/2006 e Curitiba/2006 e os quintos lugares em Guaporé/2008 e Cascavel/2012;

*** Aquele acidente pavoroso no que seria a largada de Campo Grande/2005, que converteu 19 dos 23 caminhões inscritos em um monte único de metal retorcido, com a imagem da cabine do Mercedes-Benz do Heber Borlenghi acertando com tudo a mureta dos boxes - estava vendo a corrida pela televisão na casa da minha mãe e dei um grito quando isso ocorreu. Imaginei o pior, e Heber felizmente saiu ileso, aquele chicote da cabine dele realmente me assustou. Um drama acompanhado do choro desesperado do Djalma Fogaça diante da constatação que seu piloto José Maria Reis estava preso às ferragens de seu Ford sob dezenas de toneladas de peso;

*** A vitória do Luiz Zappelini em Curitiba/2005, que a chuva converteu em uma das corridas mais malucas de todos os tempos. Não exatamente a vitória, em si, mas um dos momentos que levaram o catarinense a ela. Nunca perguntei a nenhum dos dois se foi isso mesmo, mas minha percepção foi de que na aproximação para o S de alta do circuito paranaense, com asfalto molhado, Zappelini perdeu o ponto ideal de frenagem e tangência e, no trabalho para tentar manter o caminhão na pista, fez uma ultrapassagem sobre Renato Martins. Por fora, o que tornou o momento ainda mais digno de aplausos. Voluntária ou não, uma manobra espetacular. E a vitória veio na metade da última volta, com uma ultrapassagem sobre Felipe Giaffone, que fazia sua segunda participação na Truck com um Scania ?bicudo? da equipe de Roberval Andrade - derrapou numa poça de óleo, o Giaffone, o suficiente para que perdesse a posição e terminasse a corrida em segundo. Zappelini também derrapou, mas nas palavras. Durante a coletiva de imprensa, como vencedor, declarou que o Brasil tinha produzido dois pilotos bons em pista molhada e um deles já tinha morrido;

*** O exercício de superação de Wellington Cirino na conquista do terceiro de seus quatro títulos, em Brasília/2005. Ele disputou as duas últimas corridas daquele ano caminhando com auxílio de muletas - e ainda assim com dores que lhe mudavam a expressão facial a cada segundo -, por conta dos pés esmigalhados num acidente nos treinos de quatro meses antes em Londrina. Em seu retorno, apesar da condição física deplorável, conseguiu um segundo lugar em Tarumã e o terceiro em Brasília, em duas vitórias de Roberval Andrade. Levou o campeonato por nove pontos, havendo 25 em disputa por etapa pelo regulamento de então;

*** A histórica vitória de Pedro Muffato em Fortaleza/2006, sua primeira e única na categoria, na etapa que marcou também sua primeira e até hoje única pole position. Estava em casa vendo pela televisão, achei que tudo estaria perdido quando Pedro se esfregou reta abaixo com Roberval Andrade - que tentava descontar uma volta de atraso -, mas deu tudo certo. Depois da corrida fui ao posto de gasolina no centro da cidade, lá estava todo mundo de Cascavel que acompanha o automobilismo bebendo, sorrindo e comemorando a vitória do Pedro. Para valorizar mais um pouquinho o número 20, esse foi o número de vezes que Pedro Muffato esteve no pódio da Truck. E o número do caminhão dele, todos sabemos, quase sempre foi o 20;

*** Cascavel/2006. Uma semana antes da corrida, Aurélio Félix comandava a reta final das obras de melhoria que costumava fazer nos autódromos que recebiam a Fórmula Truck. Um pequeno séquito acompanhava Aurélio em cada passo. Aurélio andava um tanto aborrecido com um tanto de desocupados cascavelenses que o acusavam de ir a Cascavel com sua categoria para ganhar o dinheiro da cidade. Talvez esse não seja o verbo mais adequado, mas o tom desse tipo de comentário era mesmo de acusação. Rodeado de gente como sempre, falava com os seus a respeito. Juli e eu dividíamos um refrigerante e um cheese-salada. Aurélio me fitou e disparou, falando um pouco alto porque nossa mesa não estava tão perto assim daquela roda: "Ô, cara, você também acha que eu venho aqui buscar o dinheiro da cidade"?. A bronca dele não era comigo e a pergunta veio acompanhada de um riso de canto de boca. "Claro que vem", respondi, sério. Dos dez ou doze que estavam à volta do Aurélio, vários me olharam como quem diz "blasfemo!". Aurélio, de braços cruzados, esperava que eu completasse a resposta, que dei fazendo outra pergunta. "Se for pra fazer caridade você para de fazer corridas e abre um hospital beneficente, não é isso?". Sim, claro que era isso. Notei que a provocação do Aurélio tinha tom de sarro e emendei com outra observação óbvia: "Aliás, eu no seu lugar pararia de distribuir tanta credencial pra amigo. Se o sujeito é mesmo seu amigo ele paga ingresso pra prestigiar seu evento". Muitos olhares baixaram de imediato. Foi o que bastou para desmanchar aquela roda em torno do Aurélio, que quando saiu da lanchonete me deu um peteleco no ombro e murmurou um "obrigado, cara".

*** De novo Cascavel/2006, primeira vez que narrei uma corrida da Fórmula Truck, pela Rádio Capital FM - a emissora é da cidade sempre transmite ao vivo as provas da Stock Car e da Fórmula Truck, sempre sou escalado para a narração. Muffato, piloto da casa, abriu a corrida como líder do campeonato, havia uma grande expectativa em torno disso, ele foi ao pódio em terceiro e perdeu a liderança para o Renato Martins, que venceu. Mas o que marcou a corrida para mim foi ver, a poucos instantes da relargada, um homem que estava pendurado no alambrado da antiga reta dos boxes cair desacordado na pista. A acelerador pleno, os caminhões passavam a poucos palmos da cabeça do dito cujo. Ele foi socorrido pela equipe médica dentro da ambulância bem em frente à cabine da rádio, e perdi o rebolado da transmissão testemunhando aquilo. Minha mãe, que viu a corrida pela televisão e zerou o volume da Bandeirantes para me ouvir no rádio, disse ter notado que fiquei muito impressionado. Serviu de lição para as centenas de narrações que viriam depois no rádio e na televisão. Com o rapaz que desmaiou na pista não aconteceu nada;

*** O que ocorreu logo depois de Brasília/2007 deve ter sido inédito na história do automobilismo mundial: o vencedor, em vez de tomar o caminho do pódio, correu em direção ao público. Até aí, nada demais, acontece a toda hora. O ineditismo que eu supus está na excêntrica comemoração de Geraldo Piquet, piloto da cidade, que acabava de conquistar a terceira de suas dez vitórias na Fórmula Truck: ele simplesmente jogou seu capacete para a torcida. Tentou jogá-lo, na verdade. A peça, que ficaria muito bem na estante da minha sala, foi parar numa área inacessível ao público. É claro que foi questão de segundos para que a corrida a pé até o souvenir de luxo tivesse um anônimo vencedor;

*** Foi hercúlea a missão em Jacarepaguá/2010, estreia da categoria no ex-autódromo do Rio. Evento inédito, portanto sem o referencial de anos anteriores, dá muito mais trabalho. Imagine isso em algo do tamanho da Fórmula Truck... Os dirigentes dos órgãos oficiais do automobilismo não se entenderam com suas agendas, a solução foi antecipar a data em uma semana e, fugindo aos padrões da Truck, fazer um evento casado com outra categoria, no caso o Porsche GT3 Cup. Naquele caso, apesar de estar em casa com a Truck, eu era visita - fui ao Rio para narrar as corridas da Porsche pelo também finado Speed Channel. Jamais havia parado para bater papo com Neusa Navarro, é provável que até então tivéssemos trocado não mais que meia dúzia de ois. Como a etapa da GT3 Cup aconteceu pela manhã, pude acompanhar a Truck com atenção. A corrida terminou, a coletiva de imprensa também, saí da coletiva e encontrei Neusa caminhando daqui até ali. Cumprimentei-a, à pronta resposta perguntei alguma coisa, e dali começou uma conversa de longos minutos que serviu, de cara, para dissipar a imagem de mulher sisuda que eu tinha dela. E fiquei impressionando não com o que falamos, que rendeu um bom post para o meu blog, mas com a tranquilidade da Neusa. Caramba, nem parecia que havia acabado de comandar uma operação tão causticante. A partir dos anos de convívio desde então, a segunda impressão foi a que ficou;

https://lucmonteiro.wordpress.com/2010/04/21/por-conta-propria/

*** Outra operação de guerra, da qual participei levemente a centenas de quilômetros de distância, foi montada para a visita de Ronaldo Fenômeno ao box da equipe de corridas do Corinthians em Interlagos/2010, ação que tornou ainda mais movimentado um ambiente já apinhado de gente dentro e fora dos boxes. Deu um trabalhão. Deu um retorno e tanto, também. E o Corinthians foi campeão naquele ano. Nas pistas, não nos campos;

*** Caruaru/2012, terceira corrida do ano. Beto Monteiro, o piloto da casa, tinha ganhado as duas primeiras etapas, no Velopark e em Jacarepaguá. O cenário era perfeito para uma festa pernambucana daquelas. E talvez nem a própria Fórmula Truck tenha apostado tanto no potencial sugerido por esse cenário. O resultado foi que, mesmo em domingo de decisão no futebol pernambucano, apareceu muito mais gente do que o autódromo poderia comportar. O ponto mais positivo de tudo isso foi a compreensão - para mim surpreendente - das milhares de pessoas que ouviram, nos portões, as instruções da organização do evento. Permitir a entrada de todos poderia acarretar consequências desagradáveis. E, com uma calma de fazer pensar na vida, milhares de torcedores voltaram tranquilamente para suas casas para ver a corrida pela televisão. Monteiro foi o terceiro colocado naquela corrida, vencida por Wellington Cirino. Na volta de retorno aos boxes depois da bandeirada, estacionou seu Iveco à beira-pista na reta oposta para saudar a fervorosa torcida pernambucana. A resposta das arquibancadas foi tamanha que, exagero meu, deve ter sido ouvida lá na Ilha do Retiro, onde logo depois o Santa Cruz venceria o Sport por 3 a 2 para se tornar campeão estadual pela 26ª vez;

*** Time pequeno faz bem a qualquer esporte, escreveu certa vez o guru Flavio Gomes, que é torcedor da Portuguesa de Desportos e abordava a façanha de Roberto Moreno na Fórmula 1 ao classificar o carro da raquítica Andrea Moda ao grid do GP de Mônaco em 1992. Leandro Reis que o diga. Sua equipe não era, claro, nenhuma Andrea Moda; ao mesmo tempo, estava longe, muito longe, da condição de favorita a qualquer glória na etapa de Goiânia/2012. Talvez isso justifique a festa sem precedentes feita por todos os integrantes da Original Reis quando o piloto da casa surpreendeu todo mundo e arrebatou a pole position, sua segunda na categoria, repetindo Campo Grande/2010. Foi carregado no colo, ovacionado pela torcida - sim, a Fórmula Truck tem torcida no autódromo na véspera das corridas - e levado para o centro da cidade para desfile em caminhão aberto. Já me disseram até que foi em caminhão do Corpo de Bombeiros, mas não acredito. A comemoração daquela turma contagiou até quem engolia a seco ter perdido a pole para o azarão Leandro. Minha vontade, embora não seja tão próximo assim do Leandro, foi de abandonar meus afazeres e cair naquela farra com os goianos. Fiquei na vontade. Na corrida, Leandro foi sexto, a menos de cinco segundos de um lugar no pódio. Dadas as limitações técnicas com que teve de lidar, tirou leite de pedra;

*** A única vez em que fui para a mureta de boxes para ver o show de manobras da Danielle e do Juninho foi em Córdoba/2012, e o que os dois e mais o Fábio Bomba fazem com aqueles caminhões causa emoções mesmo em quem está acostumado com o enredo. O que me deixou surpreso mesmo foi ter visto, a poucos palmos de distância, a Dani dando cavalos-de-pau executando as manobras com um caminhão daquele tamanho tendo apenas uma das mãos ao volante, enquanto ajeitava as madeixas atrás da orelha, serena como se estivesse debaixo de seu edredom em Santos;

*** Ainda Córdoba/2012. Precisávamos de um violão para uma roda de musiquinha sertaneja no domingo à noite no hotel. Ainda era sexta-feira. Enquanto quebrávamos os miolos tentando imaginar onde poderíamos conseguir um, Paulo Salustiano, então piloto de um Volvo da ABF, surge no recinto. De estalo, propus que se ele fosse para o pódio na corrida o problema e conseguir o instrumento seria dele. "Eu topo, mas só se terminar a corrida entre os três primeiros", treplicou, para nossa pronta concordância. Salu terminou a corrida em segundo, conseguiu um violão com alguém e a comemoração pelo resultado de pista teve os repertórios das melhores duplas do passado e do presente. Momentos bobos dos quais quem participou jamais vai esquecer. Ali nasceu a Ilha da Fantasia, e só quem esteve lá sabe do que se trata, e essas pessoas vão ler isso aqui e abrir um sorriso e lembrar que todos deveríamos fazer festas sadias mais vezes;

*** A quarta corrida do último campeonato teve de ser interrompida para que a condição da pista fosse restabelecida. Isso por conta de um acidente que envolveu sete caminhões. Pedro Muffato, David Muffato, Ronaldo Kastropil, Luiz Lopes, João Maistro, Jaidson Zini e Adalberto Jardim foram traídos por uma poça de óleo e saíram da pista no mesmo ponto. Com eles, nada aconteceu. O que me fez colocar Brasília/2014 nessa seleção de vinte não foi o acidente, e sim um de seus desdobramentos. Michelle de Jesus, apenas em sua terceira corrida na categoria, protagonizou uma das manobras mais bonitas da temporada, evitando bater no caminhão de Jardim, que se arrastava todo danificado em direção aos boxes, e evitando também o que por alguns segundos parecia ser uma pancada violenta no muro de entrada dos boxes. Perguntei à Michelle algumas vezes se foi manobra consciente, se agiu daquele jeito por reflexo ou no puro susto. Até hoje não tive resposta - talvez nem ela mesma saiba.




Luciano Monteiro
Luc Monteiro é jornalista há 23 anos. Teve início prematuro na profissão em 1992, aos 14 anos, na redação do jornal "O Paraná", onde atuou até fins de 2008. Atualmente, Luc atua como narrador de automobilismo na televisão e na internet, nas transmissões de categorias como Brasileiro de Marcas, Porsche GT3 Brasil, Mercedes-Benz Challenge e Sprint Race. Formado em jornalismo em 2009, Luc também integra a equipe da agência jornalística Grelak Comunicação.

1 2 3 4 5 6




COPYRIGHT CATVE.TV | 2011 - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS MOBILE READY