14/02/2015 12h28

Escalada no Parque Nacional do Iguaçu

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No ultimo fim de semana (08) fui escalar no Parque Nacional do Iguaçu (PNI) em Foz do Iguaçu - PR junto com meu irmão (Luiz Fernando Zubéldia) que mora na mesma cidade.

O PNI é hoje uma das 7 maravilhas do mundo. O visual do parque é indescritível, só estando lá para saber. O movimento de turistas é intenso e o controle de entrada e saída do parque é rigoroso. Para poder escalar por lá então é ainda mais rigoroso, porém necessário.

Portanto primeiro fiz contato com meus amigos escaladores da região que formam a Associação Montanhistas de Cristo, a AMC como é conhecida por lá. Toda semana na quarta feira é enviado um ofício ao parque pedindo autorização para escalar no fim de semana, no oficio vai o nome dos escaladores interessados. Somente com uma resposta positiva do parque, fica liberada a entrada de forma gratuita aos escaladores.

Contato feito e oficio aprovado me desloquei de Cascavel para Foz do Iguaçu, encontrei meu irmão e fomos na casa do escalador Dilson Dantas, mais conhecido como Zangão. Lá nos encontramos com mais escaladores e fomos ao PNI. Chegamos por volta de 8h30, estacionamos os carros em frente ao Hotel das Cataratas. De lá é mais um quilômetro de caminhada pelo asfalto até a entrada da trilha que leva as paredes do cânion. A trilha tem cerca de 600m até chegar no rio, depois seguimos mais 500m rio acima pelas pedras até chegarmos no setor de escalada.

Eu e meu irmão escolhemos escalar próximo a gruta que existe por lá, local muito bonito, com várias vias. O domingo estava lindo, dia muito ensolarado, e calor, perfeito para o climb. Nos equipamos e então fui primeiro, com meu irmão fazendo a segurança.

Estava a 1,5m do chão chegando na primeira proteção fixa em pé num pequeno platô(degrau) e segurando em uma fenda, quando meu domingo mudou...

Enquanto segurava na fenda para passar minha primeira proteção, o bloco que formava esta fenda se desprendeu da parede, ouvi o barulho e vi aquela pedra do tamanho de um micro-ondas vindo para cima de mim, não estava alto do chão, mas ainda não tinha protegido na corda. Então minha reação para sair de baixo da pedra foi me jogar para trás e para o lado, porém a base das vias é irregular e cheia de pedras. Cai de mal jeito e, por sorte, a pedra caiu do meu lado e não em cima de mim.

Meu irmão rapidamente foi me ajudar, fiz uma auto avaliação rápida e vi que estava com muita dor no pé esquerdo e com um corte profundo na perna direita. Pedi para que o Luiz Fernando fosse buscar ajuda com os outros escaladores. No primeiro momento pensei que havia fraturado o pé esquerdo e sozinho me arrastei até uma pedra mais plana e deitei, esperando a ajuda chegar. Quando meu irmão voltou com os outros escaladores a dor já estava insuportável e eu só pensava no sofrimento que seria sair daquele local até o hospital.

Uma das escaladoras que estava por lá é socorrista e fez um primeiro exame, constatou que possivelmente não tinha fraturado. Ainda assim, o pessoal imobilizou meu pé e pediram ajuda para o Igu Kang (presidente da AMC). Ele então entrou em contato com o diretor do PNI, que enviou resgate através do Macuco (passeio de barco feito pelo rio Iguaçu). Rapidamente o pessoal do resgate chegou com o barco, enquanto eu me desloquei até a beira do rio com a ajuda dos meus amigos escaladores, Sergio Viveiros, Bruno Staut, Zangão, Andressa Zanlorenzi, Emilio Santor e meu irmão.

No barco estava um socorrista chamado Hermes, que me atendeu muito bem e disse que estava tudo certo. Apesar de o pessoal do Parque querer me levar para o hospital, pedi para que o Zangão me acompanhasse até o carro e de lá seguimos para o hospital. Fui atendido pelo médico plantonista que fez um raio x e constatou que não havia quebrado nada. Fiquei feliz com isso, a principio era um entorse e pensei "não é nada grave".

Como não conseguia dirigir, entrei em contato com o Roberto Lazzari Junior, outro amigo escalador de Cascavel, que foi me buscar em Foz.


Chegando em Cascavel fui a um especialista em tornozelo, que constatou um rompimento parcial de ligamentos. Pediu uma ressonância e me ordenou ficar seis semanas com o pé imobilizado.

Só então caiu a ficha... A viagem programada para a montanha no carnaval já era, a descida da estrada da Graciosa até Caiobá que faria em março também já era. Mas ainda assim, dos males o menor: de molho por uns noventa dias até me recuperar 100%.

Agradeço aqui a ajuda dos meus amigos escaladores de Foz do Iguaçu, aos funcionários do Parque Nacional que foram muito rápidos e prestativos, ao meu irmão que levou o maior susto, e principalmente a CATVE que acredita e apoia o meu trabalho.

Logo estarei de volta e com outras viagens a lugares incríveis, enquanto isso vou postando sobre a viagem de Arenales nos próximos dias.

Por Douglas Zubéldia.







02/02/2015 15h19

1º dia de escalada em Arenales

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O primeiro dia em Arenales foi para se adaptar ao estilo de escalada do local e principalmente a rocha que é o granito, bem diferente do basalto que estou acostumado a escalar na região oeste do Paraná.

Após montar acampamento junto com os brasileiros Ervikton Silva, Paulo José Ferreira e Rafael Reolon, formamos duas duplas para escalar no grupo Muralla de La Mitria, a cerca de 45 minutos de caminhada do acampamento. O parceiro do primeiro dia foi o Rafael e fizemos duas vias: Filo del Caballito (200m) e Intercooler (125m).
Começamos escalar por volta de meio dia. Por estamos na montanha, mesmo com o o tempo ensolarado e fazendo calor, o vento deixava os lugares à sombra mais frio.
A via Filo del Caballito proporciona um visual incrível e uma escalada bem variada, uma via clássica da Mitria. Demoramos cinco horas para subir e descer da via; o rapel requer uma atenção redobrada, pois se errar pode acabar enroscando corda, o que dificulta a descida.

Assim que chegamos ao chão, já entramos na via Intercooler: via um pouco mais técnica e sem proteções fixas. Demoramos cerca de duas horas para escalar e descer. A via não tem um visual tão surpreendente quanto a Filo, mas a escalada é mais divertida .
No final do rapel encontramos Paulo e Ervikton, que haviam terminado a Filo del Caballito e feito apenas 25m da Intercooler.
Rafael e eu terminamos o dia exaustos, devido a exigência das vias, mas ainda assim satisfeitos, por facilitar a adaptação à escalada local.






16/01/2015 16h24

Escalada Los Arenales

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Los Arenales é um conjunto de montanhas, agulhas rochosas e vales profundos que formam a região do Cordón Portillo, que pertence aos cordões frontais da Cordilheira dos Andes. O lugar possui diversas agulhas com mais de três mil metros de altitude e diversas montanhas com mais de 4500m.

Arenales é considerado um dos melhores lugares para a prática de escalada em rocha na América do Sul. Possui diversas rotas com diferentes níveis de dificuldade e altura. Algumas vias podem chegar a 700m de altura e a altitude pode variar de 3000m a 3800m acima do nível do mar. Esses fatores tornam a escalada ainda mais desafiadora para aqueles que pretendem se aventurar por lá.

Para quem quer chegar a Arenales a partir de Mendoza basta seguir a sudoeste através da Ruta 40 até Tunuyán, em seguida vai para oeste na Ruta 94 passando pelas imediações de Vista Flores e Los Sauces até chegar em El Manzano Histórico. A partir desse ponto segue por uma estrada de rípio até chegar no Refugio Portinari um total aproximado de 190km. O Refúgio funciona como uma aduana e por ser uma área de preservação, é preciso preencher cadastro e assinar termo de responsabilidade para se escalar por lá. Feito isso, após dois quilômetros chega-se na ponte onde tem lugar para estacionar os carros e montar acampamento a 2600m de altitude. Aqueles que quiserem acampar com um pouco mais de ?conforto?, basta seguir caminhando rio acima por 20 minutos, até o refúgio El Cajón de Los Arenales, casa mantida pelos montanhistas locais com colaboração dos escaladores de fora. Ainda assim, é um espaço muito simples, não possui água encanada nem rede elétrica, muito menos banheiro. Os montanhistas e escaladores acampam entorno da casa e utilizam o refugio para cozinhar e passar as horas de folga da escalada ou dias de chuva conversando e trocando experiências.

Quer saber mais sobre esse lugar, acompanhe os próximos posts.

Por Douglas.






23/01/2014 14h04

Rumo a Vallecitos

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31 de dezembro de 2013
Acampamento El Salto - 4300m
5 h

A intenção era escalar o Vallecitos (5460m), uma linda montanha em torno de 500 metros mais baixa que o Plata.
O despertador tocou para nos acordar, mas quem disse que dormimos?
As rajadas de vento não cessaram durante a noite toda. As vezes éramos surpreendidos com as varetas da barraca nos golpeando, tamanha a força do vento.
Nem precisei avisar o Douglas na barraca ao lado. Era lógico que com aquele tempo não iríamos a lugar algum.
Por volta de 9h o Douglas veio até nossa barraca avisar que a Carol e ele iriam descer, pois estavam cansados do mau tempo. Não era pra menos: era a terceira noite que a fúria do vento não nos deixava descansar. Escalar naquelas condições também significava risco e a previsão era piorar ainda mais o tempo nos próximos dias.
Cogitei a ideia de fazer a última tentativa. Douglas mostrou-se decidido a descer. Thyago também concordou, e Ervikton, apesar de acreditar que descer fosse a coisa mais sensata a fazer, balançou com a minha idéia. Era tudo o que eu precisava para pilhá-lo ainda mais.
Fugindo do vento, preparamos o café dentro da barraca empilhando pedras ao redor do fogareiro para não ter surpresas. Rafael, curitibano que conhecemos lá, disse que se fossemos até o Vallecitos ele nos acompanharia até certo ponto para aclimatar.
Depois de muita persistência convenci o Ervikton a fazer a investida ao Vallecitos, mas ele colocou uma condição: deslocarmos no ritmo imposto por ele. Concordei prontamente.
As 11h da manhã o vento continuava forte e dois montanhistas argentinos que tinham saído às 7h para atacar o Vallecitos regressavam ao acampamento sem sucesso.
- Hola ¿cómo estás? - Oi como estão? - perguntei
- Bien. - Bem ? me responderam
- ¿Llegó a la cumbre? - Chegou ao cume?
- No, no es posible. Hay mucho viento. ? Não, não é possível, Tem muito vento.
Então Ervikton me olhou como quem pergunta se eu tinha certeza do que estava fazendo. É claro que eu estava preocupado, mas confesso que fiquei ainda mais instigado com a idéia de subir.
Não tinha certeza se chegaríamos ao cume, mas estava certo que deveríamos tentar. Falei com Ervikton para que escalássemos até onde fosse possível, voltando se algo não estivesse bem e ele, mais uma vez, concordou.
Com quase seis horas de atraso em relação ao previsto, Rafael, Ervikton e eu saímos às 11h40. Mas fizemos um bom ritmo até La Hoyada (4700m).
No caminho, Ervikton se emocionou ao lembrar do nosso amigo Kurman, também escalador, que faleceu no ano passado em uma cachoeira em Prudentópolis PR. Kurman e Ervikton eram como irmãos.
Rafael voltou para o acampamento ao atingir os 5100m (conforme a aclimatação que ele havia planejado) e nós prosseguimos até Portesuello (5200m), onde fomos golpeados pelo forte vento que nos obrigou a sentar no chão.
As rajadas passavam de 70km/h. Colocamos mais um fleece por baixo do anorak. Além de muito frio, não era possível permanecer em pé e mal conseguíamos escutar. Para conseguir nos comunicarmos, tínhamos que gritar um com o outro:
- COMO ESTÁ? - perguntei
- ESTOU BEM, MAS ESTOU ACHANDO MUITO PERIGOSO! - reclamou Ervikton
- E AÍ?
- VOCÊ É QUE MANDA!
- VAMOS PROSSEGUIR! DURANTE AS RAJADAS CRAVE OS BASTÕES E SE ABAIXE!
- BELEZA!
Fiquei feliz ao ver que Ervikton confiava em mim e que, apesar dos contratempos estava, disposto a encarar o desafio.
Ali o trecho se tornara ainda mais perigoso, pois seguimos pela crista da montanha até o cume e a nossa direita a encosta é escarpada. Um penhasco íngrime exatamente na direção onde o vento soprava.
Assim prosseguimos: a cada rajada mais forte, parávamos e abaixávamos a silhueta para não sermos arrastados e antes das 17h atingimos o ponto mais alto do Vallecitos a 5460 metros de altitude, numa jornada que durou 5 horas e 10 minutos.
Ao lembrar da primeira expedição, fiquei impressionado ao ver o quanto havia chegado perto do cume em 2011. Com o montanhista Wagner Castilho, de Sarandi ? PR, fui obrigado a descer faltando apenas 60m de desnível por causa de uma forte nevasca.
Dessa vez, no alto do Vallecitos pude presenciar uma das cenas mais emocionantes de toda a expedição, quando Ervikton saca do bolso a foto de Kurman e deposita lá na cruz, na caixa do cume. Lembramos situações e risadas com o bom e velho amigo Kurman. Conversamos um pouco, mas o silêncio falou muito mais.
Descemos e nos comunicamos por rádio com o refúgio, avisando do nosso retorno com segurança.
Passamos a virada de ano acampados no Salto (4300m) comemorando o feito, enquanto Douglas, Carol e Thyago fizeram a festa no Refúgio San Bernardo (2800m).

Por LAZZARI.



21/01/2014 15h31

Descanso no acampamento El Salto

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Depois do ataque ao Cerro Plata, retornamos ao acampamento e estávamos exaustos, principalmente o Roberto que havia chegado ao cume da montanha.
Decidimos descansar um dia e somente no dia seguinte tentarmos o cume da montanha Vallecitos; se os ventos colaborassem.

A madrugada não foi das melhores. O vento soprava forte, parecia querer arrancar a barraca do chão e nos levar com ela. Quando parava o vento e acreditávamos que conseguiríamos dormir um sono profundo, ele voltava lançando as paredes da barraca contra nossas cabeças. Em algumas horas a barraca deitava mesmo, era impossível dormir. Amanheceu e o vento continuou forte até metade da manhã. Quando finalmente deu uma trégua e imaginamos que poderíamos dormir, o sol esquentou a barraca de um modo que não tinha como permanecer dentro dela.

A vida na montanha não é fácil, mas o dia estava lindo e o visual fazia esquecer todos os perrengues.

Tomamos café com direito a pão com doce de leite e cappuccino de chocolate.

Aproveitamos o dia para conversarmos com outros montanhistas que estavam no acampamento. A troca de experiências nessas horas é muito importante, além de proporcionar novas amizades.

Durante o dia, a Carol arrumou a barraca de mantimentos para termos uma ideia do que ainda nos restava de comida. Roberto e eu coletamos água; tarefa nada fácil, pois além da água ser extremamente gelada, tinha que ter sorte de conseguir uma que não estivesse turva por causa do barro. Ervikton e Thyago aproveitaram para dar uma caminhada até o acampamento La Hoyada para melhorar a aclimatação.

Carol, Roberto e eu conversamos com Rafael, outro brasileiro que estava na montanha, até Ervikton e Thyago voltarem, perto das 17h. Fizemos um lanche, Ervikton aproveitou para dormir, Rafael foi para a barraca dele e Carol, Roberto, Thyago e eu ficamos sentados admirando a paisagem, tirando fotos e jogando conversa fora até a hora do jantar.

No dia seguinte atacaríamos o cume do Vallecitos.

Fizemos então uma janta reforçada com polenta e molho. Após o jantar arrumamos as mochilas para a manhã seguinte e fomos dormir, torcendo para o vento dar uma trégua e conseguirmos descansar.

Por DOUGLAS.



19/01/2014 11h56

Ataque ao Plata

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29 de dezembro de 2013
Acampamento El Salto
1h30

O despertador toca acordando Ervikton, Thyago e eu.
Ainda sem sair da barraca, deixamos aquecendo água para fazer chá enquanto nos preparávamos. Combinamos de acordar o Douglas na outra barraca, pois ele não tinha certeza se iria para o ataque, já que a Carol não estava muito bem devido aos efeitos da altitude. Apesar disso, Carol disse se sentir um pouco melhor e insistiu para que Douglas fosse com a gente.
Vestimos segunda pele, fleece grosso, anorak, três camadas de luvas, duas camadas de meias, botas duplas, ecoheads para o rosto e touca. Ajustei os bastões de trekking e iniciamos a jornada às 2h50 da manhã, com 20 minutos de atraso.
Fazia muito frio de madrugada, em torno de 5 graus negativos.
Com o vento, a sensação térmica diminuía ainda mais, então resolvi parar o mínimo possível para descanso, pois em movimento além de me manter aquecido, mantinha também o foco.
Após 30 minutos de trekking, fiz minha primeira parada, ao alcançar dois montanhistas argentinos que pararam para reforçar suas roupas. Já eu, tirei o fleece e fiquei apenas com a segunda pele e o anorak.
Assim que o Thyago chegou, lhe perguntei como se sentia e se o Douglas e o Ervikton estavam próximos. A resposta foi negativa. Ervikton tinha voltado pois não se sentia bem.
A desistência de um integrante do seu grupo é sempre ruim, pois abaixa a moral de todos e nos faz titubear perante os obstáculos.
Parado, o frio tomava conta. As mãos pareciam congelar. Resolvi continuar a subida enquanto Thyago ajustava seu equipamento e Douglas se aproximava. Devido ao frio, relatei que não iria mais parar.
Cheguei sozinho ao acampamento La Hoyada (4700m) e de lá avistei várias luzes cortando a trilha. Uns 10 montanhistas que estavam cerca de 200m acima de mim. Firmei o passo e decidi alcançá-los.
Isso aconteceu quando atingimos Portezuelo Plata - Lomas Amarillas, crista que divide o caminho para as duas montanhas, a 5000m de altitude. Eram dois grupos de argentinos. Eles que ficaram abismados com a minha chegada quando disse que estava vindo do acampamento El Salto (4300m), bem abaixo de onde eles haviam partido (La Hoyada - 4700m).
Olhei pra baixo e avistei dois pontos de luz um pouco a frente de La Hoyada, com certeza Thyago e Douglas.
Passei os grupos de argentinos e cheguei até Natália, guia de montanha que acompanhava um dos grupos, e seu cliente André. Ela se mostrava muito entusiasmada e tentava constantemente animar e dar força ao seu grupo. Perguntou-me se queria passá-la. Achei melhor não. Decidi acompanhá-la já que ela tinha muito mais experiência e ninguém mais estava a nossa frente.
Chegamos a Portezuelo Plata - Vallecitos, a 5200m de altitude, às 6h da manhã.
Dali, na crista da montanha, se pode ver toda a cadeia montanhosa do outro lado. Uma paisagem impressionante, mas que nos deixava expostos a fortes rajadas de vento, o que nos obrigou a sentar no chão. Conferi o termômetro: 10 graus negativos.
Resolvi esperar o Douglas e o Thyago, e então os dois grupos me ultrapassaram novamente e seguiram. Olhei para baixo e avistei apenas uma luz distante iluminando o caminho: será que mais alguém desceu? Pensei.
As fortes rajadas de vento me obrigavam a deitar e esperar alguns minutos. Voltei à crista e olhei novamente, não avistei mais nenhuma luz. Estava sozinho e como se não bastasse não sentia mais os dedos das mãos. Nessas horas passam milhões de coisas pela cabeça: O que eu tô fazendo aqui?
Mas continuo a subida: apertando os bastões de caminhada, abrindo e fechando as mãos na tentativa de aquecê-las.
Avisto os argentinos à frente e me concentro em alcançá-los novamente.
Descobri mais tarde, que Thyago voltou próximo de 5000m de altitude, devido a dores de cabeça, tonturas e ânsia de vômito.
Douglas subiu até 5100m. Atingido pelas rajadas de vento e não sentindo mais as mãos, voltou para o acampamento.
O sol nasceu e eu tinha esperança que a temperatura fosse melhorar. Enganei-me. Ao passar pelos grupos e alcançar Natália mais uma vez, o termômetro marcava 15 graus negativos, a 5400m.
O sol se escondeu quando contornamos a encosta leste do Falso Plata, montanha um pouco mais baixa ao lado do verdadeiro Plata.
A água das mangueiras das bolsas de hidratação congelou. Sem conseguir tomar água em movimento, fui obrigado a parar para retirar minha térmica com chá e me hidratar.
A partir dali, a caminhada se tornou lenta e a respiração ainda mais difícil. A cada cinco/dez passos fazia uma parada para respirar.
O sol ressurge quando atinjo a encosta do verdadeiro Plata.
Num trecho da subida consigo avistar os destroços de um helicóptero que caiu no Plata em 1996 durante um resgate mal sucedido. Penso em tirar uma foto, mas não consigo pegar a máquina com todas aquelas luvas e os dedos das mãos duros de frio. Tirar as luvas? Sem chance. Sem foto!
Sigo em movimento, passo a passo... Rezando... Pensando...
Cheguei a piscar mais lento e isso pareceu uma eternidade. Abri os olhos e demorei pra entender onde estava... O forte vento, a bela paisagem, o sol, tudo vai te embriagando... Às vezes parecia delirar.
De repente, um pouco acima, avisto Natália com os braços erguidos e gritando... Mais dois passos e caí na real.
A emoção tomou conta, lágrimas corriam pelos olhos, pelo rosto, e surge uma força inexplicável. Aperto o passo... Estava a poucos metros do cume.
As 10h30 atingi o cume do Plata, 6000m de altitude, e logo Natália e André me receberam com abraços.
A ascensão durou 7 horas e 40 minutos com um desnível de 1700 metros.
Registrei rapidamente o momento e antes que o frio me dominasse, desci até o acampamento El Salto.
Fiquei um pouco triste de não termos chegado todos ao cume, apesar de saber que isso poderia acontecer. Mas muito feliz por ter atingido o topo dessa montanha que há tanto tempo vinha tentando.

Obrigado por acompanhar o blog
Roberto Lazzari Jr.



14/01/2014 19h29

Subida para El Salto

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Seguindo o planejamento Roberto, Ervikton e Thyago foram para o Salto, local do nosso ultimo acampamento, levaram tudo que estava em Pedra Grande, porém Carol e eu tínhamos planejado ir ao Salto e voltar, pois ela ainda não estava bem aclimatada. Aproveitei então para levar uma cargueira com boa parte das coisas para que no outro dia Carol fosse para o Salto levando menos peso. Durante a subida Carol estava indo muito devagar (respeitando sua condição física) enquanto Roberto e Thyago tomaram a frente, logo Ervikton nos alcançou; quando tive a idéia de chegarmos no Salto e não voltarmos a Pedra Grande, pois sabia que se a Carol voltasse, no outro dia não aguentaria subir novamente. Pedi para o Ervikton acompanhar Carol até Salto e fui na frente, já que não acamparíamos mais em Pedra Grande eu teria que voltar para buscar o restante das coisas, uma caminhada longa e dura. Quando cheguei no salto, Roberto e Thyago já estavam montando o acampamento, descansei e contei para eles da minha idéia. Os dois concordaram, mas me alertaram que eu iria me desgastar muito. Ajudei um pouco na montagem do acampamento e voltei correndo para Pedra Grande, e como diz o ditado ?na descida todo santo ajuda?. Lá chegando, encontrei outro brasileiro, o Rafael, mais conhecido como Papael. Conversei um pouco com ele enquanto fiz um almoço de Liofoods, nesse tempo ele me contou como havia chegado ali na montanha, uma história muito doida, mas que fica para outro post. Em seguida carreguei a outra cargueira, desmontei a barraca e escondi algumas coisas que não iríamos levar para o último acampamento. Foram quase três horas para subir até Salto e quando estava chegando Roberto veio me encontrar. Ele estava preocupado pois já era tarde. Falei que estava tudo bem e que apenas estava cansado e com fome, ele me contou que tinha ido até La Hoyda aclimatar. Chegando no acampamento fui ver a Carol. Ela estava deitada, com enjôo e dor de cabeça, até vomitou, mas dei remédio para dor de cabeça e falei para ela dormir, pois é normal isso acontecer na altitude. Ervikton e Roberto fizeram a janta por volta das 20h, pois como planejávamos atacar o cume do Cerro Plata na madrugada seguinte tínhamos de dormir cedo, principalmente eu, pois havia feito duas vezes o trajeto de Pedra Grande ao Salto e estava com as pernas muito fadigadas. Antes de deitar falei para o Roberto me acordar, e avisei que iria junto se a Carol estivesse melhor. Deixar alguém sozinho na montanha passando mal é algo muito difícil de fazer e eu também sabia que teria outro dia para ataque ao cume.

Por DOUGLAS.



14/01/2014 19h13

Acampamento I

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27 de Dezembro de 2013

Hoje foi o dia de deixar o conforto do Refúgio (2800m) e partir para o Acampamento 1. Daqui em diante ficaremos em barracas e temos de levar todo os pesados equipamentos para cima, como as botas duplas, barracas, saco de dormir, isolante térmico, fogareiro, panelas e comida suficiente para nossa permanência na montanha, ou seja, agora a subida é feita utilizando as mochilas cargueiras, com aproximadamente 85 litros de capacidade.
Douglas e Carol se anteciparam, Ervikton e Thyago seguiram logo atrás deles e eu fiquei para acertar a logística do restante do equipamento que será levado de mulas amanhã até o Acampamento El Salto (4300m).
Pagando 850 pesos argentinos (R$ 215) contratamos o serviço de mulas, o que facilita muito a nossa subida. Uma mula é capaz de transportar 60Kg e foi o suficiente para levar toda a comida para cinco pessoas durante um período de dez dias e mais duas barracas para neve que pesam em torno de 4,5kg cada.
Saímos por volta de 9h, cada um com aproximadamente 25kg nas costas e devido nossa boa aclimatação, optamos por pular dois locais de acampamentos: Veguitas (3200m) e Vegas Superior (3300m), indo direto para Piedra Grande, onde montamos o acampamento a 3500 metros.
O tempo melhorou muito, chegamos a Piedra Grande após aproximadamente 4 horas de jornada e não havia uma nuvem no céu.
Abaixo de um impressionante teto estrelado fizemos nosso primeiro jantar a base de fogareiro e descansamos.
O plano é não perder tempo para o dia seguinte: desmontar as barracas e partir para o acampamento 2, El Salto, a 4300m de altitude.

Por LAZZARI.



14/01/2014 18h36

Aluguel de equipamentos

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26 de Dezembro

Saímos do refúgio San Bernardo com destino a Mendoza por volta de meio dia. Chegando à cidade fomos almoçar no Ítaka, um restaurante e hotel que já conhecíamos da outra viagem, pedimos pizza e uma cerveja para relaxar e esperamos até 16h para irmos alugar os equipamentos. Os argentinos têm um horário de trabalho diferente do nosso, é das 9h às 12h e das 16h às 21h. Fomos primeiro a loja Chamonix, para alugar botas duplas, campons e barracas 4 estações. Roberto, Ervikton, Thyago e Carol encontraram botas duplas, porém para meu tamanho de pé não havia nenhuma, é muito difícil encontrar botas duplas para tamanho 44. Então fomos para outra loja chamada Orviz onde encontramos uma bota para meu tamanho, Só o valor do aluguel da minha bota e campon por 7 dias ficou em torno de mil pesos.
No fim do dia fomos ao mercado comprar mais comida para complementar com a comida Liofilizada que trouxemos do Brasil, compramos macarrão, farinha de polenta, doce de leite, chá, suco e até um refrigerante.
Antes de voltarmos ao refúgio jantamos no mesmo restaurante que almoçamos, e pedimos pizza novamente, aproveitamos para utilizar a internet do local para postarmos as informações dos primeiros dias da montanha.

Por Douglas.



27/12/2013 00h16

Pico Franke

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25 de Dezembro

Na noite de natal após um dia cansativo no San Bernardo, Lazzari apresentou a idéia de fazer o cume do Franke no dia seguinte, uma montanha com pouco mais de 4800m. Comentamos essa idéia com outros montanhistas que estavam na Ceia de natal e todos só diziam ?és muy largo? trecho muito longo a ser percorrido. Então pensamos, vamos sair cedo, porem a idéia ficou só no planejamento, acordamos mesmo eram 8:30h da manhã, apenas Lazzari, Ervikton e Eu fomos fazer a ascensão enquanto Carolina e Thyago foram para Piedra Grande (local onde será nosso primeiro pernoite em barracas durante a jornada de ascensão ao Plata) levar alguns equipamentos para montar o acampamento.
O dia estava muito bonito, com sol entre nuvens e a temperatura oscilando entre 5ºC e 15ºC. Estava meio preocupado com a subida, pois no dia anterior não havia feito uma parte da aclimatação que era chegar ao cume do San Bernardo. Com isso estaria indo dos 3600m direto para 4800m, o que tornaria ainda mais difícil a subida, mas mesmo assim encarei o desafio, Lazzari estava muito bem durante a subida, Ervikton estava muito cansado, apesar de aclimatado, e eu cansado e não tão bem aclimatado quanto eles. Durante o trajeto entendi porque os argentinos diziam ?és muy largo?, que montanha dura! Além de longe ela é muito íngreme, com muitas pedras e trechos de escalada, Ervikton e eu pensamos varias vezes em voltar, mas Lazzari não nos deixava. Após 7h de subida chegamos ao cume, pra ajudar ainda tem um trecho de escalada fácil, porém perigosa, qualquer descuido e o desfiladeiro do outro lado era caminho certo. No cume tinha duas cruzes e pouco espaço, mal cabia nós três lá em cima. Ervikton e eu começamos a sentir os sintomas da altitude, náuseas e muita dor de cabeça, se pudéssemos ficaríamos por lá mesmo para evitar a descida, mas como dizem os montanhistas ?o cume é apenas a metade do caminho? então após dormir uns 15 minutos e tirar algumas fotos começamos a dura descida, pegamos um atalho por um caminho muito íngreme e de pedras soltas onde descemos escorregando, o que nos poupou umas 3h da caminhada, ao fim deste trajeto ainda tínhamos mais 5km até o refúgio, chegamos nele por volta de 20:40h exaustos e com muita fome, não por menos, foram quase 12h de atividade intensa, mas fomos recebidos com uma sopa quente muito deliciosa preparada por Thyago e Carolina.

Por DOUGLAS.



Extreme Sports

Douglas Zubéldia

Douglas Zubéldia, 30 anos, casado. Formado em Educação Física pela Faculdade Assis Gurgacz (FAG) e com especialização em Avaliação Física e Prescrição de Exercícios para Populações Especiais. Trabalha como Personal Trainer no Studio Health.

Apaixonado por esportes outdoor, é aficionado por escalada esportiva e também praticante de montanhismo. Escalador desde 2007, encontrou nessa prática uma forma de estar em contato direto com a natureza e fugir da rotina do mundo moderno.

Acredita que qualquer um que goste de estar no meio da natureza pode participar do universo do montanhismo, basta procurar a orientação correta. Incentivador do esporte está sempre disposto a ensinar aqueles que têm interesse em começar.



Roberto Lazzari Junior

Roberto Lazzari Junior é Educador Físico especializado em Treinamento Desportivo e Personalizado pela Faculdade Assis Gurgacz. Proprietário da academia Equilíbrio Vertical, trabalha como Instrutor de Pilates e Escalada.

Montanhista por paixão, tem como foco as escaladas tradicionais. Já participou de várias expedições pelo Brasil, Canadá, Patagônia, Cordilheira dos Andes e está sempre em busca de novos desafios.

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